Coronavírus: quase todo mundo tem que pegar para a pandemia passar?

Pesquisadores esclarecem conceitos chave para entender como pode se comportar a pandemia e por que não podemos ficar de braços cruzados.

 

São Paulo tem uma morte a cada hora por coronavírus - ISTOÉ ...

 

Até o dia 16 de março, tanto Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, quanto Boris Johnson, primeiro ministro britânico, cogitavam apenas cruzar os braços enquanto a população de seus respectivos países fosse infectada pelo novo coronavírus.

No plano inicial deles, já descartado, só deveriam ser protegidos os mais vulneráveis.

A ideia era criar o que eles entenderam que seria a imunidade de rebanho, ou seja, quanto maior o número de infectados pelo SARS-CoV-2, mais pessoas se tornariam resistente ao vírus devido à memória imunológica adquirida.

Assim, chegaria um momento em que o patógeno pararia de se disseminar a rodo por falta de hospedeiros suscetíveis.

O problema desse raciocínio é que o coronavírus é um agente infeccioso novo e não sabemos quantas pessoas ele é capaz de infectar caso nenhuma medida seja adotada.

Além disso, a imunidade de rebanho tem ótimos resultados quando é feita de forma controlada, utilizando vacinas.

Não usamos um agente potencialmente letal, tampouco o deixamos livre para agir, a fim de alcançar a imunidade de rebanho.

Devemos empregar medidas baseadas em estudos e tecnologia.

Eram as “festas do sarampo”.

Até podia funcionar, mas o processo não era isento de riscos.

No caso do coronavírus, um patógeno que mal conhecemos, o preço pode ser alto demais.

A imunidade de rebanho será eventualmente atingida.

Mas não podemos apressar esse fenômeno imaginando que,  ao proteger tão somente idosos, doentes crônicos e outros mais vulneráveis, estaremos a salvo.

Por isso fala-se tanto na expressão achatar a curva da epidemia.

Se deixarmos muita gente ser infectada em um curto período, os sistemas de saúde não darão conta dos casos que se agravarão.

Não temos como garantir que a maioria dos casos será como um simples resfriado.

Também não temos como garantir que tipo de imunidade iremos adquirir.

Será permanente? Vai durar um ano?

É muito cedo para saber e para apostar a vida de pessoas nisso.

Para entender melhor a imunidade de rebanho, precisamos conhecer dois conceitos epidemiológicos extremamente importantes:

  • número de reprodução básico (R0),
  • número de infecção efetivo (R).

Vamos lá?

 

Conceitos para nos defender da Covid-19

O número de reprodução básico (R0) é utilizado para medir o potencial de transmissão de um vírus.

Esse número é uma média de para quantas pessoas um paciente infectado é capaz de transmitir o patógeno, assumindo que as pessoas próximas ao paciente não são imunes a ele.

Por exemplo, o R0 estabelecido para o sarampo é 15.

Então podemos esperar que, em média, uma pessoa infectada seja capaz de transmitir o vírus para outras 15 pessoas suscetíveis.

Esse parâmetro não é igual para todos os agentes infecciosos, pois fatores como condições ambientais, forma de transmissão, duração da infecção e comportamento da população infectada, afetam diretamente o cálculo.

Assim, os valores dados na literatura científica só fazem sentido no contexto especificado e é recomendável não usar valores obsoletos ou comparar valores com base em diferentes modelos.

Agora vamos entender o número de infecção efetivo (R).

Uma população raramente será totalmente suscetível a uma infecção no mundo real.

Alguns contatos estarão imunes devido a uma infecção prévia que conferiu imunidade ou como resultado de imunização anterior, pela ação das vacinas.

Portanto, nem todos os contatos serão infectados e o número médio de casos secundários por caso infeccioso será menor que o número básico de reprodução.

Nesse cálculo, levamos em consideração as pessoas que são suscetíveis e não suscetíveis.

Com essas informações apresentadas, podemos concluir que, caso o valor de R seja maior do que 1, o número de casos aumentará, iniciando uma epidemia.

Para que um vírus pare de se espalhar, o R tem que ser menor do que 1.

Para fazer uma estimativa de R, multiplicamos o valor de R0 pela fração suscetível de uma população.

Utilizando o mesmo exemplo do sarampo, temos o R0 = 15.

Esse vírus começa a se disseminar em um local em que 60% da população é imune, logo 40% da população é suscetível.

O número reprodutivo efetivo para o sarampo nessa população é 15 x 0,4 = 6.

Nessas circunstâncias, um único caso de sarampo produziria uma média de seis novos casos.

 

A imunidade de rebanho

No cenário do sarampo, já conseguimos captar a importância da vacinação e podemos entender por que os agentes de saúde defendem que, nesse caso, precisamos ter uma cobertura vacinal de 95% da população.

Não adianta 90%, tem que ser 95%.

Veja os cálculos nesses dois cenários com esse vírus:

  • Se vacinarmos 90% da população, estimamos que 10% da população é suscetível, portanto o cálculo de R é 15 x 0,1 = 1,5. O R ainda é maior do que 1 e o vírus vai se espalhar.
  • Se vacinarmos 95% da população, estimamos que 5% da população é suscetível, portanto o cálculo de R é 15 x 0,05 = 0,75. O R é menor do que 1 e o vírus vai parar de se disseminar.

Os 5% restante da população são pessoas que não podem receber a vacina, por ter o sistema imunológico comprometido ou alguma alergia aos componentes da vacina.

Protegemos a massa para que eles também não sofram.

Vacinar, portanto, não é uma questão pessoal, mas social.

Ainda assim, vale notar que, em 2019, tivemos mais de 13 mil casos de sarampo no Brasil.

 

E o coronavírus com isso?

Bom, não temos vacina para o vírus da Covid-19 e o cenário mais otimista é que ela esteja pronta apenas em 2021.

Para ter uma imunidade de rebanho controlada, teríamos que ter essa vacina agora.

O R0 do coronavírus foi calculado com base nos casos chineses e temos um valor de 2,6.

Como se trata de um vírus novo e não sabemos quantas pessoas estão imunes, estipulamos que 100% da população seja suscetível logo, o R0 é igual ao R.

Portanto, assumimos que dez pessoas infectadas consigam transmitir o vírus para outras 26.

Isso é o melhor que conseguimos calcular com base nos dados disponíveis (e ainda sujeitos a alterações).

A conta toda é bem mais complicada e simplificamos ao máximo para que se tenha uma ideia da importância da vacinação e da irresponsabilidade de deixar a população exposta ao vírus sem tomar medidas não farmacológicas, no caso, o isolamento social.

Se a população do Reino Unido tomasse a atitude de não fazer nada, mesmo em um cenário otimista em que só 50% dos cidadãos seriam infectados, teríamos 33 milhões de pessoas contaminadas.

Se considerarmos que a taxa de mortalidade mundial da Covid-19 é de 3,4%, teríamos um pouco mais de 1 milhão de mortos.

Esses números fizeram com que Trump e Johnson reconsiderassem ficar apenas de braços cruzados.

Ainda bem que o Brasil  está se mexendo! Temos pessoas inteligentes. Graças a Deus!

 

Fonte:

Saúde.

Natalia Pasternak é PhD em microbiologia, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo e presidente do Instituto Questão de Ciência

Luiz Gustavo de Almeida é doutor em microbiologia, diretor do Pint of Science no Brasil e coordenador de Projetos Educacionais do Instituto Questão de Ciência

 

Top