Drogas como Ozempic e Wegovy, Mounjaro, suprimem apetite e reduzem consumo calórico em até 40%, mas podem gerar deficiências nutricionais graves.
A popularização dos medicamentos para perda de peso baseados em GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, trouxe resultados expressivos na redução do apetite e no emagrecimento.
No entanto, estudos recentes apontam um risco que ainda é pouco discutido: a dificuldade de absorver nutrientes essenciais quando a ingestão alimentar cai drasticamente.
Pessoas que utilizam esses medicamentos reduzem o consumo de energia entre 16% e 40%.
Embora isso facilite a perda de peso, o corpo continua precisando de vitaminas, minerais e proteínas para manter células, músculos e órgãos funcionando adequadamente, explica Rachel Woods, professora de fisiologia da Universidade de Lincoln (Reino Unido).
Como os medicamentos funcionam
Esses fármacos imitam o hormônio GLP-1, produzido naturalmente pelo organismo, que regula o apetite e a sensação de saciedade.
Ao retardar o esvaziamento gástrico e atuar nos centros de apetite do cérebro, os remédios fazem com que as pessoas se sintam satisfeitas mais rapidamente e por mais tempo.
O problema é que, quando a quantidade de comida consumida diminui significativamente, torna-se mais difícil garantir a ingestão adequada de nutrientes.
Em dietas tradicionais de restrição calórica, esse risco sempre existiu.
A diferença é que muitas dessas dietas falhavam justamente pela dificuldade de adesão, o que limitava o tempo de exposição às deficiências nutricionais.
Com os medicamentos GLP-1, a situação muda.
Se as deficiências nutricionais se instalam e o padrão alimentar reduzido persiste por meses ou anos, os efeitos podem incluir:
- perda muscular,
- imunidade enfraquecida,
- anemia,
- perda óssea,
- problemas neurológicos.
Evidências de deficiências nutricionais
Um estudo com pacientes que utilizavam GLP-1 e se preparavam para cirurgia de substituição articular identificou taxas elevadas de desnutrição e desnutrição grave.
Exames de sangue revelaram níveis mais baixos de proteínas essenciais, indicando nutrição inadequada.
Outra pesquisa, baseada em questionários alimentares, mostrou que muitos usuários desses medicamentos apresentavam dietas pobres em fibras, cálcio, ferro, magnésio, potássio e várias vitaminas, incluindo A, C, D e E.
O consumo de frutas, vegetais, grãos e laticínios também ficou abaixo dos níveis recomendados.
Um estudo observacional de grande escala, citado pelo artigo de Woods, acompanhou pacientes que receberam prescrição de medicamentos GLP-1.
Em seis meses, cerca de 13% foram diagnosticados com alguma deficiência nutricional.
Em um ano, esse número subiu para mais de 22%, incluindo deficiências de vitaminas e minerais, anemia por deficiência de ferro e deficiência de proteínas.
A deficiência de proteínas é particularmente preocupante. A proteína é fundamental para manter massa muscular, força e função física.
A perda de peso frequentemente envolve perda de músculo além de gordura, e isso pode ocorrer com medicamentos GLP-1.
Proteína insuficiente acelera a perda muscular, afetando equilíbrio, mobilidade e saúde metabólica a longo prazo.
Exercícios de resistência podem ajudar a proteger os músculos, mas sem proteína dietética suficiente, seus benefícios são limitados.
Casos graves e emergências médicas
Em situações raras, mas graves, o consumo alimentar extremamente baixo durante o uso de GLP-1 levou a emergências médicas.
Um relato de caso descreveu um paciente que desenvolveu desidratação grave e cetoacidose após diarreia persistente e ingestão alimentar muito reduzida.
A cetoacidose ocorre quando o corpo é forçado a queimar grandes quantidades de gordura para obter energia, produzindo compostos ácidos que podem se tornar fatais se acumularem.
Também foram registrados casos raros de pessoas que desenvolveram deficiência grave de vitamina B1 após náusea prolongada e alimentação mínima enquanto usavam medicamentos GLP-1.
Essa condição, conhecida como encefalopatia de Wernicke, afeta o cérebro e pode causar confusão, problemas de coordenação e danos neurológicos duradouros se não tratada rapidamente.
Uma revisão recente constatou que muitas pessoas que tomam medicamentos GLP-1 recebem pouca ou nenhuma orientação nutricional significativa.
Sem orientação, torna-se difícil atender às necessidades nutricionais quando o apetite é drasticamente reduzido.
Muitas pessoas com obesidade já enfrentam maior risco de deficiências nutricionais, incluindo ferro e vitamina B6.
A inflamação crônica pode interferir na absorção e utilização de nutrientes pelo organismo.
Comer menos enquanto toma medicamentos GLP-1 pode, portanto, piorar vulnerabilidades nutricionais já existentes.
Alternativas e soluções práticas
Isso explica o crescente interesse em refeições prontas ricas em nutrientes comercializadas para pessoas que usam medicamentos GLP-1.
Essas refeições geralmente são ricas em fibras e projetadas para fornecer mais nutrição por caloria.
Manter uma pequena seleção de ingredientes ricos em nutrientes à mão e adicionar um ou dois a cada refeição pode fazer diferença real.
Ainda assim, a conveniência importa.
Para pessoas com tempo, habilidades culinárias ou conhecimento nutricional limitados (e que podem pagar por elas) refeições preparadas projetadas para serem ricas em nutrientes podem ser uma opção útil.
Fonte:
Dra. Rachel Woods, professora de fisiologia da Universidade de Lincoln – Reino Unido.
Época Negócios – Ciência e Saúde.
Mundiblue.

