Convivência entre profissionais humanos e agentes de IA começa a ganhar força dentro das organizações; com isso, cresce a preocupação com segurança, governança e regulação

Os agentes de IA começam a ocupar um espaço cada vez mais ativo dentro das empresas.
Se antes a IA era usada principalmente para responder perguntas ou auxiliar tarefas pontuais, agora ela passa a executar atividades, analisar dados, organizar fluxos de trabalho e até participar de reuniões.
Mas o que diferencia um agente de um simples assistente?
Para Kenneth Corrêa, professor de MBAs da FGV e pesquisador da área, ainda existe muita confusão sobre isso.
“Quando a gente usa o ChatGPT , faz uma pergunta e ele responde, ele é um assistente. Ele é passivo, responde ao que foi perguntado. Quando falamos de agentes, a ideia é que ele execute. Isso quer dizer que não é mais como montar a fórmula no Excel, mas, sim, faz a planilha para mim.”
Segundo o especialista, 2026 marca justamente a passagem do discurso para a prática.
Se em 2025 as discussões em eventos da área de tecnologia eram só em torno dos agentes de IA, com diversas promessas, 2026 passa a ser o ano de colocar os agentes em prática e trazer retorno real.
O que acelerou os agentes de IA nas empresas
Uma pesquisa recente da consultoria McKinsey mostra que 62% das empresas afirmam que estão ao menos experimentando agentes de IA em suas operações.
Para Victoria Luz, especialista em IA aplicada a negócios, dois fatores explicam esse avanço.
*O primeiro é a melhora dos próprios modelos.
“Estamos vivendo um desenvolvimento de modelos muito ágil. E a gente observou que os modelos, de um tempo para cá, estão com a linguagem mais assertiva. Eles estão mais confiáveis em termos de resultado” diz a especialista.
*O segundo fator são os novos protocolos de integração — padrões criados para permitir que agentes se conectem a sistemas externos, ferramentas corporativas e até outros agentes de forma mais estruturada e segura.
Com essas duas condições reunidas, as empresas passaram a avançar para a operação.
Como a monday.com está transformando agentes em parte da equipe
A monday.com é um exemplo de empresa que está apostando no modelo humanos e agentes.
A plataforma conhecida originalmente por organizar fluxos e colaboração entre pessoas, passou a incorporar recentemente em seus serviços oferecidos, agentes de IA capazes de executar tarefas, analisar dados e interagir com usuários.
“Hoje o ambiente de trabalho não é mais um ambiente de humano para humano, mas um ambiente colaborativo também com agentes”, disse Maurício Prado, diretor-geral da monday.com para a América Latina.
Agora os agentes de IA são integrados nativamente à monday.com e qualquer membro da equipe pode configurar, implementar e supervisionar sem a necessidade de conhecimento técnico, a partir de comandos simples.
“A gente quer potencializar o trabalho dos humanos, trabalhando, inclusive, com agentes e equipes de agentes.”
Dentro da própria empresa, os agentes já fazem parte da rotina de trabalho e até recebem nomes.
Um deles, por exemplo, qualifica oportunidades comerciais, enquanto outro analisa dados e prepara relatórios com interação diretamente no Slack.
O papel do humano muda mas, não desaparece
A convivência com agentes não é apenas uma questão de aprender a usar uma nova ferramenta.
Ela tende a reconfigurar o próprio papel dos funcionários dentro das empresas.
Resistir ao uso da IA pode se tornar inviável no médio prazo.
Humanamente é impossível a gente comparar o que a gente consegue fazer com o que a máquina consegue fazer.
Um funcionário que sabe usar inteligência artificial de forma estruturada vai ter um resultado exponencial. Vai existir uma pressão estrutural para adoção.
Mas usar bem não significa apenas delegar.
Se antes uma pessoa fazia o relatório, agora essa pessoa deveria validar o relatório gerado pela IA.
E para validar, é preciso entender os riscos, os vieses e as limitações daquele sistema.
*Corrêa concorda com essa visão.
“A gente precisa pensar no human in the loop, o ser humano como parte do processo. E onde o ser humano está entrando no processo? Onde uma decisão estratégica precisa ser tomada?”
Ele lembra que os agentes são ferramentas de trabalho.
“Eles não têm ética, moral ou valores humanos. Ele tem vieses da base de treinamento que foi usada.”
O risco de tratar agentes como humanos
Não são só em dados analisados que os agentes de IA estão aparecendo.
Corrêa conta que já participou de reuniões em que agentes eram apresentados como integrantes do time.
“O agente entra na reunião como se fosse uma nova pessoa, apresenta resultados e tudo mais.”
Embora reconheça que essa narrativa torne a tecnologia mais palatável, ela faz um alerta.
“O meu medo é passar para o funcionário a sensação de que aquele colega está cuidando do trabalho dele, quando, na verdade, aquilo ainda exige validação.”
Um artigo recente da Harvard Business Review também trouxe essa discussão.
Os autores argumentam justamente que humanizar agentes pode gerar efeitos negativos no ambiente corporativo, criando confusão sobre responsabilidades e expectativas irreais sobre o comportamento desses sistemas.
Os autores fizeram um estudo que mostrou que, entre os 1.261 gerentes, diretores e executivos de RH e finanças dos EUA, Canadá e União Europeia que participaram do experimento, 31% afirmaram que a liderança de suas empresas já considera a IA como um membro da equipe ou funcionário.
23% disseram que suas organizações têm agentes de IA listados em seus organogramas.
Isso se mostrou verdadeiro além do setor de tecnologia.
Eles descobriram que a prática se estende a setores como saúde, serviços financeiros, varejo e serviços profissionais.
Para os autores do artigo, a IA agente tem um potencial significativo para expandir o que as organizações podem fazer e como o trabalho é realizado.
O desafio, portanto, não é se devem adotá-la, mas como integrá-la aos fluxos de trabalho de forma a preservar a responsabilidade, manter a qualidade e permitir que os funcionários trabalhem efetivamente em conjunto com ela.
Empresas ainda estão em fase de testes
Apesar do avanço acelerado, especialistas afirmam que o mercado ainda está em fase de experimentação.
Empresas testam aplicações, ajustam processos e tentam entender quais áreas trazem mais retorno.
Para Luz, o maior erro é tentar transformar departamentos inteiros em estruturas agênticas, sem estratégia clara.
Além disso, cresce a preocupação com segurança, governança e regulação.
Para ela, a legislação ainda está correndo atrás dessa evolução.
Ele aconselha que é preciso documentar processos, manter informações e saber exatamente onde a IA foi usada.
Isso vai ser fundamental porque se precisar auditar um processo, será possível saber de onde veio a decisão.
No fim, a grande questão não é se os agentes vão entrar nas empresas, eles já estão.
A questão é se as empresas estão prontas para trabalhar com eles sem perder de vista quem, afinal, ainda precisa ser responsável pelas decisões.
Fonte:
Kenneth Corrêa, professor de MBAs da FGV e pesquisador.
Harvard Business Review – Artigo.
Época Negócios – Futuro do Trabalho.
Mundiblue.
