Desigualdade salarial: mulheres ganham 21,3% menos que homens, mesmo com alta do emprego

Contratação feminina cresceu 11%, mas diferença salarial persiste, mostra o Relatório de Transparência Salarial do Ministério do Trabalho.

As mulheres recebem, em média, 21,3% menos que os homens no setor privado do país, segundo o 5º Relatório de Transparência Salarial e Critérios Remuneratórios, divulgado nesta segunda-feira dia 27 de Abril pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

O levantamento reúne dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) e analisou cerca de 53 mil empresas com 100 ou mais empregados, comparando os anos de 2023 a 2025.

Apesar do avanço na participação feminina, a diferença salarial não diminuiu e segue presente em todos os setores.

Desde 2023,  primeiro ano após a entrada em vigor da Lei de Igualdade Salarial, o emprego feminino cresceu 11%, passando de 7,2 milhões para 8 milhões de trabalhadoras, um aumento de cerca de 800 mil vagas.

No mesmo período, o número de mulheres negras (pretas e pardas) empregadas cresceu 29%, passando de 3,2 milhões para 4,2 milhões, um aumento de 1 milhão de trabalhadoras.

Também aumentou o número de empresas com maior presença feminina negra.

Os estabelecimentos com pelo menos 10% de mulheres negras somaram 21.759 em 2025, alta de 3,6% em relação a 2023.

Ainda assim, a desigualdade de renda permanece estável.

A série histórica mostra que a desigualdade vem aumentando.

  • No primeiro relatório, divulgado em março de 2024, a diferença salarial era de 19,4%.
  • No segundo, em setembro, subiu para 20,7%.
  • Em abril de 2025, chegou a 20,9%.
  • Em novembro, a 21,2%. Agora, alcança 21,3%.

Em relação ao salário de admissão, as mulheres passaram a receber, em média, 14,3% menos que os homens em 2025, ante 13,7% em 2023.

Na remuneração geral, elas ganham R$ 3.965,94 por mês, enquanto os homens recebem R$ 5.039,68. 

Diferença média entre os rendimentos de homens e mulheres — Foto: Arte g1
Diferença média entre os rendimentos de homens e mulheres. Foto: Arte g1

A massa de rendimentos das mulheres cresceu de 33,7% para 35,2%, mas ainda está abaixo da participação feminina no emprego, que é de 41,4%.

Para alcançar esse patamar, seria necessário um aumento de R$ 95,5 bilhões na renda das mulheres.

Aumentar a massa em 10,6% teria impacto no consumo das famílias e diminuiria a diferença de rendimentos entre homens e mulheres, mas isso representa custo para as empresas, o que as torna mais resistentes a promover essas mudanças”, ressalta a Subsecretaria de Estatística e Estudos do Trabalho do MTE.

A desigualdade varia de acordo com o porte das empresas.

*Em companhias menores, com até 250 funcionários, a diferença salarial é menor.

*Já nas empresas maiores, onde os salários são mais altos, a distância entre homens e mulheres tende a aumentar.

Por ocupação, há maior aproximação entre os salários em funções administrativas, mas os avanços são limitados em cargos de maior qualificação.

*Entre profissionais de nível superior por exemplo, houve leve piora na diferença salarial.

A desigualdade também varia entre os setores econômicos.

Indústria e agropecuária concentram as maiores diferenças, enquanto comércio e serviços apresentam distâncias menores, ainda assim, negativas para as mulheres em todos os casos.

No campo das políticas internas, houve avanço em iniciativas de apoio.

A oferta de jornada flexível passou de 40,6% para 53,9%, enquanto o auxílio-creche cresceu de 22,9% para 38,4%.

As licenças-maternidade e paternidade estendidas também avançaram, de 20% para 29,9%.

Ainda assim, essas medidas são menos comuns do que critérios tradicionais de remuneração, como tempo de experiência, metas e planos de carreira. 

Ações adotadas pelas empresas para promover diversidade — Foto: Arte g1
Ações adotadas pelas empresas para promover diversidade. Foto: Arte g1

O levantamento também mostra que cresceu o número de empresas que afirmam promover mulheres, passando de 38,8% para 48,7%.

Já as ações de contratação de mulheres em grupos específicos, como pessoas com deficiência, LGBTQIA+ e chefes de família, permaneceram relativamente estáveis.

Por outro lado, houve avanço na contratação de mulheres:

  • indígenas, de 8,2% para 11,2%.
  • Mulheres vítimas de violência, de 5,5% para 10,5%.
  • Apenas 7% dos estabelecimentos afirmam adotar políticas de contratação para mulheres em situação de violência.

Desigualdade salarial por raça

No recorte por raça, a desigualdade é ainda mais acentuada.

Asmulheres negras estão na base da renda, com remuneração média de R$ 3.026,66 e salário contratual mediano de R$ 1.908,79.

Já as mulheres não negras recebem, em média, R$ 5.018,11, com salário contratual mediano de R$ 2.434,51, valor mais próximo ao dos homens em geral, mas ainda inferior.

Entre os homens, os não negros concentram os maiores rendimentos, com média de R$ 6.560,02 e salário contratual mediano de R$ 2.921,21.

Já os homens negros recebem R$ 3.875,52, com salário contratual mediano de R$ 2.211,15.

Diferença salarial por gêneros e raça — Foto: Arte g1
Diferença salarial por gêneros e raça. Foto: Arte g1

Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apontam que o Brasil poderia ampliar a economia em R$ 382 bilhões com a adoção de políticas para igualdade de gênero, valor que poderia dobrar com a plena equidade entre homens e mulheres.

O Banco Mundial também alerta que, caso as mulheres tivessem as mesmas oportunidades que os homens no mercado de trabalho, o Produto Interno Bruto (PIB) global poderia crescer mais de 20%.

Diante do atual cenário, os ministérios das Mulheres e do Trabalho lançaram, em abril do ano passado, o Movimento pela Igualdade no Trabalho.

A iniciativa conta com a adesão de empresas e organizações trabalhistas de diversos setores, como o bancário e o industrial.

Além disso, foi publicado no Diário Oficial, o Plano Nacional de Igualdade Salarial e Laboral entre Mulheres e Homens, com vigência até 2027.

A finalidade é promover iniciativas que contribuam para reduzir as desigualdades salariais entre mulheres e homens no mundo do trabalho.

A lei Nº 14.611 de 3 de julho de 2023, sancionada pelo presidente Lula, reforça o direito de homens e mulheres a receberem remuneração igual para trabalho de igual valor, com medidas mais rigorosas para garantir transparência, fiscalização e combate à discriminação no ambiente de trabalho. 

Por isso, a legislação obriga empresas com mais de 100 empregados a adotar medidas para garantir essa igualdade, incluindo transparência salarial, fiscalização contra discriminação, canais de denúncia, programas de diversidade e inclusão e apoio à capacitação de mulheres.

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2023/lei/l14611.htm

Fonte:

5º Relatório de Transparência Salarial e Critérios Remuneratórios – Ministério do Trabalho e Emprego/MTE

g1.

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