Por que os brasileiros adoecem mais, mesmo fazendo mais exercícios. Entenda!

Em menos de duas décadas, a atividade física subiu e a obesidade dobrou. A economia do bem-estar nunca cresceu tanto, e a saúde metabólica nunca piorou tão rápido. Algo no modelo quebrou

 

 

Entre 2009 e 2024, a proporção de brasileiros que praticam pelo menos 150 minutos de atividade física por semana subiu de 30% para 42%.

Desde 2006, no entanto, a obesidade adulta mais que dobrou, de 11,8% para 25,7%, e o excesso de peso passou de 42,6% para 62,6% da população.

Os dados são do Vigitel 2025, do Ministério da Saúde.

Lidos juntos, descrevem um paradoxo desconfortável: o país se mexe mais e adoece mais.

Esse paradoxo não é brasileiro por acaso, mas fica mais nítido aqui do que em quase qualquer lugar.

Enquanto a obesidade avançava, a economia global do bem-estar chegou a US$ 6,8 trilhões em 2024, o dobro de 2013 e quase quatro vezes o tamanho de toda a indústria farmacêutica, segundo o Global Wellness Institute.

Nunca se consumiu tanta saúde.

E nunca se produziu tão pouca.

*A conclusão é dura, mas necessária: o mercado ficou extraordinariamente bom em vender o desejo de saúde e extraordinariamente ruim em entregar saúde.

Para entender como chegamos aqui, vale comprimir 25 anos em três movimentos.

1 – Nos anos 2000, a saúde virou informação: a internet, os primeiros serviços de telemedicina e o sequenciamento do genoma tiraram o cuidado de dentro do consultório.

2 – Na década de 2010, virou dado: wearables, aplicativos e o fitness conectado passaram a medir o corpo 24 horas por dia.

3 – Nos anos 2020, virou intervenção: os agonistas de GLP-1 deixaram de apenas medir e passaram a alterar o metabolismo.

As duas primeiras ondas venderam a promessa de saúde.

Só a terceira, vinda da indústria farmacêutica regulada, moveu o ponteiro clínico em escala.

Há uma inversão importante nessa história.

Por vinte anos, foi o wellness, território sem regulação e movido pelo consumidor, que ditou o ritmo, enquanto a medicina regulada corria atrás.

Agora, o que de fato funciona nasceu do lado regulado e está sendo consumido como se fosse wellness: por aspiração, por status direto ao consumidor e muitas vezes fora da bula.

*A fronteira entre cuidar e consumir, que sempre existiu, começou a se dissolver.

Por trás disso, uma lei de ferro que se repete há 25 anos: a adoção sempre chega antes da regra.

A telemedicina era praticada no mundo desde 2002, mas o Brasil só ganhou marco legal permanente em 2022, vinte anos depois.

Suplementos eram vendidos há décadas, mas a ANVISA só criou a categoria “suplemento alimentar” em 2018.

Os GLP-1 já eram desejados como produto de estilo de vida antes de qualquer enquadramento maduro sobre o uso off-label.

O intervalo entre o que as pessoas fazem e o que as regras governam não é um defeito do sistema.

É exatamente ali que se construiu cada grande negócio de saúde das últimas duas décadas, e é ali que se acumulam também os maiores riscos:

  • segurança – confiança em excesso, 
  • ausência de evidência,
  • desigualdade.

O Brasil ilustra as duas pontas desse intervalo melhor do que ninguém.

Do lado do consumo, lideramos e até exportamos.

O Wellhub, nascido como Gympass em São Paulo em 2012, criou a categoria de bem-estar corporativo, hoje vale US$ 2,4 bilhões, tem 3 milhões de assinantes e 28 mil parceiros só no país, e mudou a sede para Nova York para liderar um mercado que uma empresa brasileira ajudou a inventar.

Do lado da regra, chegamos tarde, quase sempre reagindo a um comportamento que o consumidor já adotou.

É na terceira era, a da intervenção, que a colisão entre saúde e wellness fica escancarada.

O GLP-1 é ao mesmo tempo, uma intervenção médica séria e um produto de consumo aspiracional.

No mundo, Novo Nordisk e Eli Lilly faturaram cerca de US$ 45,7 bilhões com duas moléculas em 2024, a franquia farmacêutica que mais cresce na história.

No Brasil, o mercado das canetas saltou de R$ 1,8 bilhão em 2021 para algo entre R$ 10 e R$ 13 bilhões em 2025, mais de cinco vezes em quatro anos, e já responde por quase 10% do varejo farmacêutico.

Só que esse consumo está concentrado nas classes A e B, a mais de R$ 1.000 por mês.

*Saúde como consumo, quando descolada de política pública, aprofunda a desigualdade.

A queda da patente da semaglutida em 2026 e a chegada dos genéricos são a virada: o preço cai, o acesso se amplia e o SUS começa, ainda de forma incipiente, a incorporar a molécula.

Para quem lidera saúde e wellness, a leitura estratégica muda de figura.

A pergunta relevante deixou de ser em qual tecnologia apostar.

Passou a ser onde vai se abrir o próximo intervalo entre a adoção e a regra, e de que lado dele construir.

Mas há uma pergunta mais profunda, e é a que este setor precisa encarar: vamos continuar monetizando o desejo de saúde ou finalmente começar a produzir saúde?

O paradoxo do Vigitel mostra que vender desejo é um beco sem saída.

*As pessoas se exercitam mais, compram mais bem-estar e continuam adoecendo, porque bem-estar consumido não é o mesmo que saúde produzida.

O GLP-1, com todos os seus dilemas de acesso e uso, provou que a segunda coisa é possível e altamente lucrativa.

Pela primeira vez em 25 anos, entregar resultado clínico virou o melhor negócio da saúde.

O próximo ciclo vai separar quem continua vendendo a promessa de quem entrega o resultado.

Não é mais uma escolha entre propósito e lucro.

Os dois agora, apontam para o mesmo lugar.

Fonte:

Época Negócios – Coluna

Mundiblue.

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