Amy Webb vê em sua filha adolescente, que cresceu sem smartphone e redes sociais, um exemplo das habilidades humanas que ganharão valor em um mundo moldado pela inteligência artificial

Em um cenário de transformações aceleradas pela inteligência artificial, a futurista Amy Webb, CEO do Future Today Strategy Group, defende que as habilidades mais valiosas do futuro podem ser justamente as mais humanas e menos digitais.
Durante um painel na SP House, no SXSW, Webb citou um exemplo doméstico para ilustrar essa ideia: a própria filha, de 15 anos.
A adolescente passou quase toda a vida sem smartphone e ainda não tem redes sociais.
Segundo a futurista, isso ajudou a desenvolver competências que tendem a se tornar raras em um mundo cada vez mais mediado por algoritmo
Para Webb, o risco não está apenas no avanço da tecnologia, mas na dependência excessiva que estamos criando em relação a ela.
“Todas as habilidades técnicas são importantes. Conhecimento, trabalho manual, tudo isso conta. Mas estamos começando a abrir mão de valores humanos intrínsecos quando confiamos demais nessas tecnologias.”
Preparar-se para a “tempestade”
Ao longo da conversa, Webb comparou o momento atual da tecnologia à aproximação de uma tempestade – metáfora que usou para descrever seu novo relatório de tendências, apresentado em um festival.
Crescida em Indiana, nos Estados Unidos, uma região frequentemente atingida por tornados, ela lembra que na escola aprendeu a observar sinais no céu, no vento e na temperatura para antecipar a chegada de uma tempestade.
Esse mesmo raciocínio, segundo ela, deveria orientar líderes empresariais e governos diante das transformações trazidas pela IA.
“Não se trata de lutar contra a tempestade. Trata-se de ter informação suficiente para tomar decisões a tempo. Quando você entende a convergência de sinais, pode acelerar decisões, mudar rotas ou interromper estratégias,” disse.
Segundo Webb, muitas das tecnologias que estão surgindo agora tendem a se tornar irreversíveis, assim como aconteceu com a internet.
“A internet permitiu coisas incríveis, mas também abriu espaço para muitos problemas. E hoje não há como simplesmente desligá-la. Algumas das tecnologias que estão sendo criadas agora caminham na mesma direção.”
A discussão sobre inteligência artificial inevitavelmente chegou ao mercado de trabalho.
Webb reconhece que algumas empresas têm anunciado demissões alegando que sistemas de IA podem substituir determinadas funções.
Mas ela faz um alerta: na prática, a tecnologia ainda não é tão capaz quanto muitos executivos imaginam.
Na maioria dos casos, as empresas acabam recontratando pessoas. A IA ainda está talvez 60% ou 70% no nível do desempenho humano.
Mesmo assim, ela prevê que a disrupção será real e ocorrerá em ritmos diferentes entre países e setores.
Curiosamente, Webb avalia que economias com forte presença de atividades físicas ou agrícolas podem estar relativamente protegidas no curto prazo.
“Se você pensar no agronegócio, no Brasil, não existe um agente de IA que vai trabalhar no campo amanhã”, disse.
Diante desse cenário, Webb defende que educação e formação profissional precisam ir além do domínio técnico.
A habilidade mais importante, segundo ela, será a capacidade de adaptação.
“Muita gente entra em colapso quando essas mudanças acontecem porque não sabe se adaptar”, disse.
Mas se você continua aprendendo e consegue seguir em frente, você atravessa essas barreiras.
Fonte:
Futurista Amy Webb, CEO do Future Today Strategy Group.
Época Negócios – Futuro do Trabalho.
Mundiblue/Silânia Costa
