O arroz e feijão, tradicionalmente ingeridos juntos, estão entre os alimentos mais consumidos no Brasil.

No entanto, nas últimas três décadas, o aumento de alimentos ultraprocessados entre a população brasileira vem substituindo essa combinação tradicional.
Um novo estudo conduzido por pesquisadores do Nupens/USP concluiu que o consumo de arroz e feijão está associado a dietas mais saudáveis, com menor impacto ambiental e mais acessíveis financeiramente.
O artigo publicado pela revista Public Health Nutrition (PHN) teve como objetivo avaliar o consumo de arroz e feijão no Brasil, descrevendo como esse consumo varia entre diferentes grupos da população e avaliando sua associação com a qualidade nutricional, o impacto ambiental e o custo da dieta.
Metodologia
Para isso, a análise contou com informações de consumo alimentar dos participantes da Pesquisa de orçamento familiar mais recente (POF 2017-2018) do Brasil com dados de mais de 40 mil indivíduos com 10 anos ou mais, representando todas as regiões, estados, áreas metropolitanas, capitais e as zonas urbanas e rurais.
Para avaliar a qualidade da dieta, os pesquisadores compararam a alimentação de pessoas com diferentes níveis de consumo de arroz e feijão.
Analisaram indicadores nutricionais, como a ingestão de proteínas, carboidratos, fibras, sódio, potássio e ferro, além do consumo de açúcares adicionados, gorduras totais, gorduras saturadas e gorduras trans.
O impacto ambiental das dietas foi avaliado por meio do cálculo da pegada de carbono e da pegada hídrica. Já a acessibilidade financeira foi calculada com base no custo total da dieta.
Resultados
Os resultados apontam que o arroz e o feijão representam cerca de um sexto das calorias da dieta dos brasileiros, com um consumo significativo em todos os grupos sociodemográficos analisados, mas principalmente em populações de áreas rurais.
*Entre as regiões, o consumo de arroz e feijão foi maior no centro-oeste e menor no sul.
Dietas com maior consumo de arroz e feijão apresentaram um perfil nutricional mais favorável, com mais ingestão de fibras, ferro e potássio e menor consumo de açúcares adicionados e gorduras.
Além disso, o maior consumo dessa combinação tradicional esteve associado a uma redução de 45% nas inadequações nutricionais da dieta.
Os benefícios se estenderam ao meio ambiente e ao bolso.
Em comparação às dietas com menor consumo de arroz e feijão, aquelas com maior presença dessa combinação apresentaram uma pegada de carbono 18% menor, uma pegada hídrica 21% menor, e custo total da alimentação 38% inferior.
“Valorizar e fortalecer o nosso arroz e feijão é uma ferramenta poderosa da cultura alimentar brasileira para promover uma alimentação saudável. Temos uma grande vantagem: essa combinação já faz parte do dia a dia e da identidade alimentar da população”, aponta Gabriela Cruz, pesquisadora do Nupens/USP e autora principal do estudo.
O texto aponta que ações de promoção da alimentação saudável têm mais chance de serem efetivas quando baseadas em práticas locais por já estarem culturalmente inseridas.
O artigo também reforça as recomendações do Guia Alimentar para a População Brasileira, já que apresenta dados que quantificaram indicadores de qualidade da dieta, e que apontam para um caminho culturalmente apropriado para o incentivo da alimentação saudável no país.
Para Gabriela, um diferencial do estudo é exatamente a brasilidade:
“É importante estudarmos a alimentação dentro do nosso contexto local. A dieta mediterrânea foi amplamente estudada e seus benefícios para a saúde comprovados, mas ela faz sentido no contexto dos países mediterrâneos. Ainda existem poucos estudos sobre dietas locais não européias”, comentou.
Fonte:
Nupens/USP
Artigo: Rice and beans: the nutritious, sustainable and affordable staple of the Brazilian diet
Revista: Public Health Nutrition (PHN)
Autores: Gabriela Lopes da Cruz, Kelly Garton, Boyd Swinburn, Maria Laura da Costa Louzada.
Artigo:
