Modelo, que permite alternar trabalho e atividades pessoais ao longo do dia, tem sido usado por empresas para aumentar o bem-estar e reter talentos

Um modelo que propõe dividir a jornada de trabalho em blocos menores ao longo do dia começa a ganhar espaço no mercado como alternativa ao experiente contínuo de oito horas diárias: o microshifting.
Impulsionada pela consolidação do trabalho híbrido e pela busca crescente por flexibilidade em relação a horários, a prática permite que profissionais façam pausas frequentes para recarregar as energias, praticar algum exercício físico ou resolver pendências pessoais.
Segundo Renata Rivetti, CEO da consultoria Reconnect Happiness at Work, as empresas estão sendo levadas a testar modelos de trabalho mais flexíveis não apenas para atrair e reter talentos, mas também para responder às necessidades crescentes de requalificação profissional.
De acordo com o “Relatório sobre o Futuro dos Empregos 2025”, do Fórum Econômico Mundial, 44% das competências dos trabalhadores devem mudar e 59% dos profissionais precisarão se requalificar até 2030.
“A questão não é se as mudanças vão acontecer, mas como as organizações vão se preparar para elas”, afirma a CEO da consultoria.
Segundo ela, as pausas não representam apenas um momento para os profissionais descansarem a mente e resolverem problemas pessoais.
Estudos em neurociência indicam que intervalos curtos, intercalados com períodos de trabalho, podem favorecer o aprendizado e melhorar a retenção de informações.
Na plataforma Wellhub, os profissionais que atuam no Brasil têm flexibilidade para trabalhar em home office e fazer pausas ao longo da jornada de oito horas.
O mais importante, segundo Natália Alves, vice-presidente de pessoas da empresa, é que as entregas mantenham a qualidade e sejam realizadas dentro dos prazos combinados, um modelo que ela define como flexibilidade com responsabilidade.
“Trabalhamos com acordos personalizados porque benefícios não precisam ser iguais para todos. Enquanto alguém pode preferir fazer pausas ao longo do dia para estudar, para mim pode ser melhor começar mais cedo e encerrar o trabalho antes das 17h. Nossa gestão é orientada por impacto”, diz Natália.
Papel da liderança
Para que modelos como o microshifting funcionem na prática, no entanto, a liderança tem papel central.
Sem metas claras e uma organização bem definida das tarefas, a flexibilidade pode se transformar em desordem, alerta a executiva.
“Não dá para oferecer liberdade sem critério, prioridade, acordos e suporte. Temos muita intencionalidade ao aplicar ferramentas e treinar as lideranças. Todos precisam ter clareza de onde querem chegar e do que precisam entregar”, diz.
Na ThoughtWorks, consultoria global de tecnologia, pequenas pausas ao longo da jornada, longe do computador, são estimuladas como forma de prevenir problemas físicos e psicológicos.
Nesses intervalos, os profissionais podem praticar atividades físicas, meditar, tomar um café ou simplesmente conversar.
A empresa também permite interrupções para compromissos pessoais, como buscar os filhos na escola ou participar de cursos e palestras.
Mas há uma regra: sempre alinhar a saída com os gestores.
“A gente combina as saídas prezando e respeitando os encontros com os nossos clientes”, destaca Graziela Pereira, diretora de pessoas da Thoughtworks para as Américas. A própria executiva utiliza as pausas para buscar os filhos adoscelentes na escola.
Com a flexibilidade, ela afirma que a empresa reduziu a rotatividade em 2025, em relação ao ano anterior.
A mudança também tem incentivado o retorno de ex-profissionais, que haviam deixado a companhia e decidiram voltar.
Segundo a consultoria, 5% do quadro é formado por esses “boomerangs”, termo usado no mercado para designar funcionários que retornam à empresa após um período fora.
“A liderança de hoje já não é a mesma de anos atrás, baseada apenas em comando e controle, em cobrar se a pessoa vai fazer ou entregar. O líder precisa ler o ambiente, compreender os objetivos da empresa e equilibrar as diferentes demandas trazidas pelos funcionários”, afirma a executiva.
A valorização do equilíbrio entre vida pessoal e profissional ganhou impulso durante a pandemia de Covid-19 e se fortaleceu com a entrada da geração Z “nascidos entre 1995 e 2010” no mercado de trabalho.
Segundo a pesquisa “Panorama do Bem-Estar Corporativo 2026, divulgada com exclusividade pelo Wellhub, 89% dos profissionais consideram o bem-estar tão importante quanto a remuneração.
O levantamento, feito com 5.000 trabalhadores em 10 países, incluindo o Brasil, mostra ainda que 64% passaram a cuidar da saúde e do bem-estar de forma mais intencional nos últimos cinco anos, enquanto 89% afirmam ser mais produtivos quando priorizam esses aspectos.
Fonte:
Relatório sobre o Futuro dos Empregos 2025, do Fórum Econômico Mundial.
Renata Rivetti, CEO da consultoria Reconnect Happiness at Work.
Graziela Pereira, diretora de pessoas da Thoughtworks para as Américas.
Natália Alves, vice-presidente de pessoas da empresa – plataforma Wellhub.
Época Negócios – Futuro do Trabalho.
Mundiblue/Silânia Costa,Enfermeira do Trabalho.
