O risco da inteligência artificial para o futuro do aprendizado e do trabalho

As empresas de IA visam ao lucro e farão de tudo para que sua tecnologia ocupe todos os espaços possíveis de ensino, mentoria e empresas, diz professora da Universidade Johns Hopkins.

 

Existem uma grande possibilidade da IA destruir a alma do ser humano. O cognitivo e a saúde mental já estão e a tendencia é piorar e as pessoas, em sua grande maioria, não se dão conta disso. Silânia Costa. Foto: Mundiblue.

 

Na semana passada, acompanhei o Century Summit VI, evento realizado pela Universidade Stanford que, nessa sexta edição, teve como tema Longevidade, aprendizado e o futuro do trabalho.

Allison Pugh, professora de sociologia da Universidade Johns Hopkins, foi responsável por uma das palestras mais impactantes.

Enquanto a maioria dos participantes apontou a inteligência artificial como a saída para os impasses contemporâneos, ela preferiu alertar para o risco da idealização da IA.

Para escrever seu mais recente livro, The last human job: the work of connecting in a disconnected world (em tradução livre, O último emprego humano: o trabalho de conectar-se em um mundo desconectado), Pugh entrevistou, ao longo de cinco anos, cerca de cem pessoas que exercem o que batizou de “trabalho de conexão” (connective labor).

São profissionais como médicos, enfermeiros, terapeutas, cuidadores e até cabeleireiros, que, na sua avaliação, “vivenciam a empatia e enxergam o outro e isso, é o que o ser humano faz de melhor”, afirmou.

A socióloga enfatizou que o futuro do aprendizado e do trabalho deve estar centrado nas pessoas.

“Focar no potencial humano é o que leva à inovação. Quando há uma conexão mútua entre os indivíduos, eles constroem algo”, disse. Também ressaltou que criou o termo “trabalho de conexão” para chamar a atenção para a sua importância:

“Estamos num momento crítico para pensar em como a inteligência artificial será usada, e o mais preocupante é ela ser apresentada como uma solução para substituir esses ‘trabalhos de conexão’. Não podemos perder de vista que as empresas de IA visam ao lucro e farão de tudo para que sua tecnologia ocupe todos os espaços possíveis de ensino, mentoria e companhia. A IA é moldada para manter o engajamento de quem a consome e seu objetivo é atender a todos os anseios da pessoa, inclusive desencorajando que se busque a ajuda de outro ser humano. Essa não é a IA que queremos. Queremos a tecnologia que fabricará medicamentos eficientes em tempo recorde, mas não aquela que pretende intervir ou mediar a vida de alguém”.

Foi uma declaração forte e necessária para os tempos em que vivemos.

Na opinião de Pugh, aprendizados e relacionamentos precisam de uma certa tensão, que ela chama de fricção.

É assim que o indivíduo sai da sua zona de conforto para alcançar algo a que aspira:

“Educadores sabem como essa fricção é relevante ao longo de toda a existência. A criatividade não acontece quando estamos satisfeitos. O sentido de propósito não nasce de estado contínuo de bem-estar e felicidade, mas de interações que envolvem dificuldades e tensões. No entanto, a IA é enaltecida porque não nos julga, porque não dorme e está sempre a postos e solícita. O que os algoritmos fazem é eliminar a fricção. Só que, no ambiente de trabalho e na vida, ocorre justamente o oposto. É fundamental a capacidade de se relacionar, o que pode estar sendo afetado, e até comprometido, quando se forja a ideia de que a inteligência artificial é a solução para tudo”.

Para se ter uma ideia do tamanho da encrenca: na semana passada, o jornal The New York Times publicou reportagem relatando que a Meta, proprietária do Facebook, Instagram e WhatsApp, está se preparando para gastar US$ 65 milhões (perto de R$ 340 milhões) em 2026 para apoiar políticos favoráveis à indústria de inteligência artificial.

O montante é o maior investimento eleitoral já feito pela empresa e sinaliza uma prioridade corporativa de escala bilionária.

Fonte:

Century Summit VI, evento realizado pela Universidade Stanford.  Tema – Longevidade, aprendizado e o futuro do trabalho.

Allison Pugh, professora de sociologia da Universidade Johns Hopkins, responsável por uma das palestras mais impactantes.

G1 – Bem – estar

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