{"id":7071,"date":"2019-07-02T14:48:05","date_gmt":"2019-07-02T17:48:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/?p=7071"},"modified":"2019-07-02T14:48:05","modified_gmt":"2019-07-02T17:48:05","slug":"saude-mental-por-que-o-mantra-faca-o-que-voce-ama-e-voce-nunca-tera-que-trabalhar-um-dia-na-vida-e-uma-armadilha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/arquivos\/7071","title":{"rendered":"Sa\u00fade Mental &#8211; Por que o mantra \u201cfa\u00e7a o que voc\u00ea ama e voc\u00ea nunca ter\u00e1 que trabalhar um dia na vida\u201d \u00e9 uma armadilha"},"content":{"rendered":"<h3>A \u00eanfase cultural em fazer o que se gosta, em carreiras de \u201cencanto\u201d, facilita legitima\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas abusivas, injustas ou degradantes no mercado de trabalho.<\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\" (Foto: GETTY IMAGES)\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/U1dAO_bOP7ZKl4Al0xkaXvCIqGI=\/e.glbimg.com\/og\/ed\/f\/original\/2019\/06\/30\/107490796_gettyimages-461932031.jpg\" alt=\"\" width=\"660\" height=\"371\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Foto: GETTY IMAGES).<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Encontrar um prop\u00f3sito de vida no emprego \u00e9 um mantra contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Maria de F\u00e1tima Superti Dalla Colletta, de 57 anos, tinha encontrado o seu.<\/p>\n<p>Formada em Enfermagem em 2007, foi trabalhar num lar de idosos em Torrinha (SP), sua cidade natal.<\/p>\n<p>Encantou-se de cara com o trabalho de cuidadora. Mas, pouco a pouco, viu-se tragada por fun\u00e7\u00f5es paralelas.<\/p>\n<p>Com o sal\u00e1rio que recebia na \u00e9poca, cerca de R$ 1.000, equipou por conta pr\u00f3pria a sala de enfermagem.<\/p>\n<p>Montou prontu\u00e1rio para cada interno, acertou o quadro de funcion\u00e1rios, fazia limpeza e comida quando alguma das cozinheiras faltava.<\/p>\n<p><strong>\u201cN\u00e3o me sentia explorada, fazia aquilo por amor. Os diretores estavam numa zona de conforto, pois eu resolvia tudo, desde uma torneira espanada, um chuveiro queimado, envolvia amigos e minha pr\u00f3pria fam\u00edlia no atendimento aos idosos.\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Em 2018, Maria de F\u00e1tima disse: Chega.<\/p>\n<p><strong>\u201cFui me esgotando por ficar cada vez mais l\u00e1 dentro, muitas vezes realizando tarefas que n\u00e3o eram as minhas.\u201d<\/strong><\/p>\n<p><em>Esse quadro se repete em outras profiss\u00f5es que, aos olhos da sociedade, envolvem cuidado, afeto e paix\u00e3o pelo of\u00edcio.<\/em><\/p>\n<p><strong>\u201cEm cozinha, a gente lava coifa, ch\u00e3o, fog\u00e3o. Cozinha nenhuma, a n\u00e3o ser de hotel, talvez, tem funcion\u00e1rio de limpeza. Ent\u00e3o a gente chega \u00e0s 7h e sai \u00e0s 2h do dia seguinte, sem ganhar nada por isso, apenas a experi\u00eancia de ter trabalhado muito.\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Formada em gastronomia e em engenharia de alimentos, a confeiteira e consultora Joyce Galv\u00e3o conta que at\u00e9 hoje v\u00ea esse tipo de explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong> \u201cNa Espanha, por exemplo, voc\u00ea pode at\u00e9 trabalhar em um restaurante premiado com estrelas Michelin, mas \u00e9 tudo de gra\u00e7a. Eles te d\u00e3o comida e moradia. Essa \u00e9 a troca.\u201d<\/strong><\/p>\n<p><em>Para Joyce, em \u00e1reas criativas, em que a gente precisa ter visibilidade, trabalhar de gra\u00e7a ou apenas para divulgar o pr\u00f3prio trabalho \u00e9 constante. Existe uma zona cinzenta na maioria dos trabalhos que fogem ao padr\u00e3o escrit\u00f3rio\/carteira assinada, em que tudo \u00e9 visto como investimento de longo prazo.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"pub-in-text\" data-google-query-id=\"CPDi4bOClOMCFZAFgQodZ10Bhg\">\n<h4>O amor cega<\/h4>\n<p>N\u00e3o se sabe direito como e quando a moda come\u00e7ou, o aforismo.<\/p>\n<p><em>fa\u00e7a o que voc\u00ea ama e voc\u00ea nunca ter\u00e1 que trabalhar um dia sequer na vida, que j\u00e1 foi atribu\u00eddo a Conf\u00facio, segue vivo no discurso de aceleradores de carreira, empres\u00e1rios e milion\u00e1rios tecnocratas. \u201cFOQVA\u201d (sigla para \u201cfa\u00e7a o que voc\u00ea ama\u201d) e suas varia\u00e7\u00f5es s\u00e3o f\u00f3rmulas repetidas \u00e0 exaust\u00e3o em livros de autoajuda, palestras motivacionais e entre coaches de carreira.<\/em><\/p>\n<p>Um de seus profetas foi Steve Jobs (1955-2011), o CEO da Apple que, em 2005, falou nestes termos a um grupo de formandos da Universidade Stanford:<\/p>\n<p><strong>\u201cVoc\u00eas precisam encontrar o que amam. Isso \u00e9 importante tanto para a vida profissional quanto para a vida amorosa. (\u2026) E a \u00fanica forma de fazer um \u00f3timo trabalho \u00e9 amar o que voc\u00ea faz\u201d.<\/strong><\/p>\n<p><em>Contudo, a \u00eanfase cultural em fazer o que se gosta, em carreiras de \u201cencanto\u201d, facilita a legitima\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas abusivas, injustas ou degradantes no mercado de trabalho.<\/em><\/p>\n<p>Esta \u00e9 a tese principal de um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Duke, na Carolina do Norte (EUA), em parceria com professores de psicologia social da Universidade Estadual de Oklahoma (EUA).<\/p>\n<p>Publicado em abril de 2019 no peri\u00f3dico cient\u00edfico Journal of Personality and Social Psychology, o artigo \u201cUnderstanding contemporary forms of exploitation: attributions of passion serve to legitimize the poor treatment of workers\u201d (Entendendo formas contempor\u00e2neas de explora\u00e7\u00e3o: \u00eanfase na paix\u00e3o serve para legitimar condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de trabalho, em tradu\u00e7\u00e3o livre) re\u00fane oito experimentos e uma meta an\u00e1lise (t\u00e9cnica estat\u00edstica que combina o resultado de dois ou mais estudos).<\/p>\n<p><em>Segundo seus autores, de forma in\u00e9dita, o artigo pretende mostrar que, como na vida amorosa, estar encantado por algo, no caso, o trabalho, pode cegar as pessoas e lev\u00e1-las a executar tarefas que n\u00e3o foram contratadas para fazer.<\/em><\/p>\n<p><em>O fato de os pr\u00f3prios gestores considerarem leg\u00edtima a atribui\u00e7\u00e3o de tarefas extras, a partir da presun\u00e7\u00e3o de que os funcion\u00e1rios gostam do que fazem, leva, em muitos casos, a piores condi\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"google_ads_iframe_\/85042905\/edepocanegocios\/vida_3__container__\">Explora\u00e7\u00e3o legitimada<\/h4>\n<p>O fen\u00f4meno descrito no estudo \u00e9 chamado de <em>legitima\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o da paix\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>Embora a paix\u00e3o pelo emprego seja positiva, ela concede licen\u00e7a para pr\u00e1ticas nocivas de gest\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra.<\/p>\n<div>\n<p>Para os autores, a explora\u00e7\u00e3o \u00e9 definida <em>a partir do momento em que a ger\u00eancia, que representa seus pr\u00f3prios objetivos e interesses, bem como os objetivos dos propriet\u00e1rios, exige que alguns funcion\u00e1rios trabalhem excessivamente ou se envolvam em tarefas degradantes sem pagamento adicional ou recompensas tang\u00edveis.<\/em><\/p>\n<p>Fazer hora extra n\u00e3o remunerada, ficar longe da fam\u00edlia, trabalhar aos finais de semana sem compensa\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo ouvir insultos e cobran\u00e7as excessivas s\u00e3o vistos como comportamentos justific\u00e1veis entre pessoas que se relacionam de forma apaixonada com o trabalho ou que a sociedade considera como <em>trabalho apaixonado.<\/em><\/p>\n<p>Injusti\u00e7as ocorrem quando os trabalhadores n\u00e3o se beneficiam o suficiente dessa entrega excessiva.<\/p>\n<p>O benef\u00edcio, nesse caso, \u00e9 tido como algo a ser colhido no longo prazo.<\/p>\n<p>\u00c9 como se o funcion\u00e1rio dedicado contasse com uma an\u00e1lise positiva futura, por parte dos empregadores, que destacaria sua dedica\u00e7\u00e3o para justificar um aumento de sal\u00e1rio ou promo\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de garantir direitos e seguran\u00e7a laboral.<\/p>\n<p>O <em>pagamento intang\u00edvel<\/em> desse esfor\u00e7o movido pela paix\u00e3o \u00e9 uma promessa que nem sempre se cumpre, o que bagun\u00e7a a no\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a ou m\u00e9rito entre os funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Segundo o estudo, essa explora\u00e7\u00e3o ocorre a partir de dois mecanismos mediadores.<\/p>\n<ul>\n<li>O primeiro deles \u00e9 o que sup\u00f5e que trabalhadores apaixonados pelo trabalho teriam se voluntariado para determinada tarefa, se tivessem tido a chance.<\/li>\n<li>O segundo se d\u00e1 a partir da cren\u00e7a de que, para esses funcion\u00e1rios, o pr\u00f3prio trabalho \u00e9 sua recompensa.<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Muito amor envolvido?<\/h4>\n<p>Nem sempre os trabalhadores est\u00e3o conscientes disso.<\/p>\n<p><em>Como a atividade que executam envolve afeto, o sujeito n\u00e3o consegue enxerg\u00e1-la como explora\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><strong>\u201cEste movimento sociocultural contempor\u00e2neo, que entende o trabalho n\u00e3o como um of\u00edcio, mas como uma atividade apaixonada da qual as pessoas obt\u00eam gozo e sentido, pode ironicamente levar as pessoas a enxergar pr\u00e1ticas gerenciais question\u00e1veis como justas e leg\u00edtimas\u201d, afirmam os autores do estudo.<\/strong><\/p>\n<p>Pessoas entusiasmadas com o trabalho s\u00e3o mais pr\u00f3 ativas, mas tamb\u00e9m podem sofrer mais de esgotamento (burnout), al\u00e9m de apresentar menor flexibilidade em rela\u00e7\u00e3o aos seus prop\u00f3sitos dentro daquela fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u201cUm bom n\u00famero de soci\u00f3logos e jornalistas t\u00eam percebido o aumento de maus tratos entre empregados apaixonados pelo trabalho, funcion\u00e1rios esses que admitem, eles pr\u00f3prios, que a paix\u00e3o justifica o abuso. Na Coreia do Sul, jovens trabalhadores desiludidos cunharam o termo <em>sal\u00e1rio de apaixonado ou pagamento de apaixonado,<\/em> para se referir, de forma jocosa, \u00e0 expectativa de que deveriam trabalhar sem ganhos substantivos porque seu entusiasmo \u00e9 a pr\u00f3pria recompensa.\u201d<\/strong><\/p>\n<p>A pesquisa ainda aponta para a legitima\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o por um caminho inverso, quando os observadores atribuem <em>paix\u00e3o e dedica\u00e7\u00e3o<\/em> ao trabalhador que est\u00e1, na realidade, sendo explorado.<\/p>\n<p>Como nem sempre o sucesso acompanha os esfor\u00e7ados, estere\u00f3tipos sociais como <em>pobre, mas feliz,<\/em> ou <em>rico, mas infeliz<\/em> refor\u00e7am o status que, para muitos, especialmente em uma sociedade individualista como a americana, o sistema social \u00e9 justo quando a desvantagem material (pobreza) \u00e9 neutralizada pelo aparente bem-estar.<\/p>\n<p>Os autores chamam esse mecanismo de <em>justifica\u00e7\u00e3o compensat\u00f3ria.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Como a pesquisa foi feita<\/h4>\n<p>Os oito experimentos iniciais entrevistaram 2.400 pessoas, entre elas estudantes, donas de casa e administradores de empresas, sobre como determinadas profiss\u00f5es e profissionais s\u00e3o percebidos, a partir de situa\u00e7\u00f5es hipot\u00e9ticas.<\/p>\n<p>A meta-an\u00e1lise cruzou os dados obtidos nos experimentos.<\/p>\n<p>No Estudo 1, por exemplo, os participantes tinham de identificar, entre 80 profiss\u00f5es, quais envolviam mais paix\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c1reas criativas e de trabalho social como: artistas, ecologia, assistentes sociais, psic\u00f3logos, atores, veterin\u00e1rios, foram apontadas como as que atraem mais gente apaixonada pelo of\u00edcio.<\/p>\n<p>Em seguida, tinham de responder qu\u00e3o bem ganhava, na m\u00e9dia, um profissional dentro de cada categoria, e quais fun\u00e7\u00f5es, entre as 80, tinham maior status.<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese dos pesquisadores, de que condi\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o s\u00e3o vistas como mais leg\u00edtimas em profiss\u00f5es associadas \u00e0 dedica\u00e7\u00e3o apaixonada (ou ao amor pela profiss\u00e3o), foi confirmada em todos os cen\u00e1rios descritos.<\/p>\n<p>Como previsto, essa rela\u00e7\u00e3o era mediada pela expectativa de que esses funcion\u00e1rios aceitariam trabalhar de forma volunt\u00e1ria, se pudessem.<\/p>\n<p><strong>\u201cNossa pesquisa sugere que podemos participar de forma involunt\u00e1ria da legitima\u00e7\u00e3o de uma forma de explora\u00e7\u00e3o trabalhista sutil e insidiosa. Certamente, n\u00e3o estamos dizendo com isso que as pessoas devam desistir de buscar o que gostam no trabalho ou na vida. H\u00e1 in\u00fameros trabalhos que deixam claro que a paix\u00e3o \u00e9 muitas vezes um benef\u00edcio. Nosso objetivo \u00e9 inspirar maior aten\u00e7\u00e3o social e cient\u00edfica \u00e0s formas de explora\u00e7\u00e3o que podem passar despercebidas na sociedade contempor\u00e2nea.\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Um poss\u00edvel caminho \u00e9 identificar, entre fun\u00e7\u00f5es, cargos e profiss\u00f5es que envolvem entusiasmo e paix\u00e3o, quais empregadores tendem a explorar os funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p><strong>\u201c\u00c9 imoral um trabalho que te explora sem qualquer desculpa pra isso, \u00e9 errado. Mas vale um conselho: entrar nessa ciente do que pode acontecer \u00e9 agir sem intelig\u00eancia. Se voc\u00ea conhece algu\u00e9m que tem se dado bem no emprego, que ama o que faz e n\u00e3o se sente explorado, \u00e9 prov\u00e1vel que essa pessoa tenha sido muito meticulosa nas escolhas que fez\u201d,\u00a0 Troy H. Campbell, professor assistente na Faculdade de Administra\u00e7\u00e3o Lundquist da Universidade do Oregon e um dos autores do artigo.<\/strong><\/p>\n<p>Campbell reconhece que nem sempre \u00e9 f\u00e1cil trocar um emprego t\u00f3xico por outro melhor.<\/p>\n<p>Mas, uma hora ou outra, isso vai acontecer, pessoas talentosas e esfor\u00e7adas caem fora de um ambiente que legitima a explora\u00e7\u00e3o da paix\u00e3o assim que podem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Quest\u00e3o de classe e de desemprego<\/h4>\n<p>Em 2014, Miya Tokumitsu, autora de <em>Do what you love: and other lies about success and happiness<\/em> \u2013 Fa\u00e7a o que ama: e outras mentiras sobre sucesso e felicidade, em tradu\u00e7\u00e3o livre, publicou um artigo na revista Slate que viralizou nas redes sociais.<\/p>\n<p><strong><em>\u201cEm nome do amor<\/em> destr\u00f3i a fal\u00e1cia sobre trabalho e voca\u00e7\u00e3o. O problema do fa\u00e7a o que voc\u00ea ama \u00e9 que ele n\u00e3o leva \u00e0 salva\u00e7\u00e3o, mas \u00e0 desvaloriza\u00e7\u00e3o do trabalho real. (\u2026) E, mais importante, \u00e0 desumaniza\u00e7\u00e3o da grande maioria dos trabalhadores\u201d, afirmou.<\/strong><\/p>\n<p>Em um mundo que exclui e segrega, de crescente precariza\u00e7\u00e3o dos direitos trabalhistas e a uberiza\u00e7\u00e3o de tudo, o<em> fa\u00e7a-o-que-voc\u00ea-ama<\/em> nos mant\u00e9m focados em n\u00f3s mesmos, nos distrai das condi\u00e7\u00f5es de trabalho dos outros, enquanto valida nossas pr\u00f3prias escolhas e nos descompromete de obriga\u00e7\u00f5es para com todos que trabalham, independentemente se amam ou n\u00e3o suas profiss\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>\u201c\u00c9 o aperto de m\u00e3o secreto entre os privilegiados, e uma vis\u00e3o de mundo que dissimula seu elitismo como nobre auto-aperfei\u00e7oamento. A vis\u00e3o de Jobs, bem s\u00e9culo 21, pede que nos voltemos para dentro. Ela nos absolve de qualquer responsabilidade ou reconhecimento pelo mundo \u00e0 nossa volta\u201d, afirma a escritora.<\/strong><\/p>\n<p>Para Suzana da Rosa Tolfo, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e especialista em rela\u00e7\u00f5es de trabalho, a ideologia de que trabalhar duro e manter a persist\u00eancia levar\u00e3o \u00e0 riqueza, \u00e0 felicidade e \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o no trabalho s\u00e3o parte da psicologia positiva.<\/p>\n<p>Mas, escolher o trabalho, emprego e profiss\u00e3o, ou seja, ter uma identidade profissional, encontram uma realidade diferente, no caso do brasileiro.<\/p>\n<p><strong>\u201cNo pa\u00eds, as possibilidades de escolhas de carreira s\u00e3o bastante afetadas pelas conting\u00eancias do mercado de trabalho restrito, das limita\u00e7\u00f5es para se estudar e se desenvolver compet\u00eancias. Em grande parte, os trabalhadores que realizam atividades cuja qualifica\u00e7\u00e3o \u00e9 pouca exigida se acostumam \u00e0s limita\u00e7\u00f5es, que autores podem chamar de explora\u00e7\u00e3o, como Alan Wertheimer.\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Nesse sentido, a l\u00f3gica por parte desses trabalhadores \u00e9 que n\u00e3o faz sentido trabalhar com todo o afinco se, muitas vezes, os gestores das organiza\u00e7\u00f5es escolhem formas de pagar o m\u00ednimo poss\u00edvel a seus empregados e remover os benef\u00edcios conquistados.<\/p>\n<p>Ela cita pesquisas do n\u00facleo de estudos de que faz parte, que estuda processos psicossociais e de sa\u00fade nas organiza\u00e7\u00f5es e no trabalho.<\/p>\n<p>Os trabalhos indicam que, mesmo que o emprego seja fonte de identidade, formador de v\u00ednculos e considerado relevante socialmente, as pessoas podem desenvolver quadros de adoecimento.<\/p>\n<p><em>Muitas vezes, o presente\u00edsmo e a resili\u00eancia ser\u00e3o as principais estrat\u00e9gias de defesa e de enfrentamento para manter-se trabalhando.<\/em><\/p>\n<p><strong>\u201cMiya Tokumitsu ironizava quando dizia que, afinal de contas, se voc\u00ea realmente ama o que faz, preocupa\u00e7\u00f5es sobre sal\u00e1rio, assist\u00eancia m\u00e9dica e previd\u00eancia social podem ficar em segundo plano\u201d, analisa Tolfo.<\/strong><\/p>\n<p>Tal qual a experi\u00eancia de Joyce Galv\u00e3o na Espanha, atividades que levam ao desenvolvimento de compet\u00eancias precisam ser aceitas sob qualquer forma, como est\u00e1gios n\u00e3o remunerados abundantes e trabalhos freelance, para citar alguns dos referidos por Tokumitsu.<\/p>\n<p><strong>\u201cEm pa\u00edses perif\u00e9ricos como o Brasil, no qual h\u00e1 precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, as condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e de seguran\u00e7a e os riscos psicossociais no trabalho desafiam o trabalhador a manter a sa\u00fade mental e o amor ao trabalho de forma saud\u00e1vel\u201d, diz Tolfo.<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte:<\/p>\n<p>Peri\u00f3dico cient\u00edfico Journal of Personality and Social Psychology, o artigo \u201cUnderstanding contemporary forms of exploitation: attributions of passion serve to legitimize the poor treatment of workers\u201d (Entendendo formas contempor\u00e2neas de explora\u00e7\u00e3o: \u00eanfase na paix\u00e3o serve para legitimar condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de trabalho, em tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/p>\n<p>Pesquisadores da Universidade Duke, na Carolina do Norte (EUA), em parceria com professores de psicologia social da Universidade Estadual de Oklahoma (EUA).<\/p>\n<p>Miya Tokumitsu, autora de <em>Do what you love: and other lies about success and happiness<\/em> \u2013 Fa\u00e7a o que ama: e outras mentiras sobre sucesso e felicidade, em tradu\u00e7\u00e3o livre. Revista Slate.<\/p>\n<p>Suzana da Rosa Tolfo, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e especialista em rela\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p>\u00c9poca Neg\u00f3cios.<\/p>\n<div class=\"apss-social-share apss-theme-4  apss-buttons-left clearfix\">\n<div class=\"apss-share-wrapper-div\">\n<div class=\"apss-facebook apss-single-icon\">\n<div class=\"apss-icon-block clearfix\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"apss-twitter apss-single-icon\">\n<div class=\"apss-icon-block clearfix\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"apss-linkedin apss-single-icon\">\n<div class=\"apss-icon-block clearfix\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"apss-google-plus apss-single-icon\">\n<div class=\"apss-icon-block clearfix\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"apss-print apss-single-icon\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00eanfase cultural em fazer o que se gosta, em carreiras de \u201cencanto\u201d, facilita legitima\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas abusivas, injustas ou degradantes no mercado de trabalho. &nbsp; Foto: GETTY IMAGES). &nbsp; Encontrar um prop\u00f3sito de vida no emprego \u00e9 um mantra contempor\u00e2neo. Maria de F\u00e1tima Superti Dalla Colletta, de 57 anos, tinha encontrado o seu. Formada [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":7072,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[],"class_list":["post-7071","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-trabalho-e-saude-mental"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7071","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7071"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7071\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7073,"href":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7071\/revisions\/7073"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7072"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7071"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7071"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7071"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}