{"id":4375,"date":"2017-09-04T13:07:26","date_gmt":"2017-09-04T16:07:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/?p=4375"},"modified":"2017-09-04T13:07:26","modified_gmt":"2017-09-04T16:07:26","slug":"um-suicidio-no-trabalho-e-uma-mensagem-brutal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/arquivos\/4375","title":{"rendered":"Um suic\u00eddio no trabalho \u00e9 uma mensagem brutal"},"content":{"rendered":"<h3>Christophe Dejours, especialista em Trabalho e Sa\u00fade Mental, desmonta a espiral de solid\u00e3o e de desespero que pode levar ao suic\u00eddio.<\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Fita-amarela-Pare.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1544 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Fita-amarela-Pare.jpg\" alt=\"\" width=\"559\" height=\"385\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, tr\u00eas ferramentas de gest\u00e3o estiveram na base de uma transforma\u00e7\u00e3o radical da maneira como trabalhamos:<\/p>\n<ul>\n<li>a avalia\u00e7\u00e3o individual do desempenho,<\/li>\n<li>a exig\u00eancia de &#8220;qualidade total&#8221;,<\/li>\n<li><i>outsourcing<\/i>.( Terceiriza\u00e7\u00e3o )<\/li>\n<\/ul>\n<p>O fen\u00f4meno gerou doen\u00e7as mentais ligadas ao trabalho.<\/p>\n<p class=\"SubCaixaContainer\">Psiquiatra, psicanalista e professor no Conservatoire National des Arts et M\u00e9tiers, em Paris, Christophe Dejours dirige o Laborat\u00f3rio de Psicologia do Trabalho e da A\u00e7\u00e3o, que estuda a rela\u00e7\u00e3o entre trabalho e doen\u00e7a mental.<\/p>\n<p>O Psiquiatra falou do sofrimento no trabalho. N\u00e3o apenas do sofrimento enquanto gerador de patologias mentais ou de esgotamentos, mas sobretudo enquanto base para a realiza\u00e7\u00e3o pessoal.<\/p>\n<p><strong>&#8220;N\u00e3o h\u00e1<em> trabalho vivo<\/em> sem sofrimento, sem afeto, sem envolvimento pessoal, explicou. \u00c9 o sofrimento que mobiliza a intelig\u00eancia e guia a intui\u00e7\u00e3o no trabalho, que permite chegar \u00e0 solu\u00e7\u00e3o que se procura&#8221;.<\/strong><\/p>\n<p>Nas condi\u00e7\u00f5es de injusti\u00e7a ou de ass\u00e9dio que hoje em dia se vivem por vezes nas empresas, h\u00e1 um tipo de sofrimento no trabalho que conduz ao isolamento, ao desespero, \u00e0 depress\u00e3o.<\/p>\n<p>No seu livro publicado e intitulado <i>Suicide et Travail: Que Faire?<\/i>, Dejours aborda especificamente a quest\u00e3o do suic\u00eddio no trabalho, que se tornou muito medi\u00e1tica com a vaga de suic\u00eddios que se verificou recentemente na France T\u00e9l\u00e9com.<\/p>\n<p>Depois da confer\u00eancia, o m\u00e9dico e cientista falou com o P2 sobre as causas laborais desses gestos extremos, tr\u00e1gicos e irrevers\u00edveis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>O suic\u00eddio ligado ao trabalho \u00e9 um fen\u00f4meno novo?<\/h4>\n<p>O que \u00e9 muito novo \u00e9 a emerg\u00eancia de suic\u00eddios e de tentativas de suic\u00eddio no pr\u00f3prio local de trabalho.<\/p>\n<p>As primeiras investiga\u00e7\u00f5es foram feitas na B\u00e9lgica, nas linhas de montagem de autom\u00f3veis alem\u00e3es. \u00c9 um fen\u00f3meno que atinge todos os pa\u00edses ocidentais.<\/p>\n<p>O fato de as pessoas irem suicidar-se no local de trabalho tem obviamente um significado. \u00c9 uma mensagem extremamente brutal, a pior do que se possa imaginar, mas n\u00e3o \u00e9 uma chantagem, porque essas pessoas n\u00e3o ganham nada com o seu suic\u00eddio.<\/p>\n<p>\u00c9 dirigida \u00e0 comunidade de trabalho, aos colegas, ao chefe, aos subalternos, \u00e0 empresa. Toda a quest\u00e3o reside em decodificar essa mensagem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Afeta certas categorias de trabalhadores mais do que outras?<\/h4>\n<p>H\u00e1 suic\u00eddios em todas as categorias, nas linhas de montagem, entre os quadros superiores das telecomunica\u00e7\u00f5es, entre os banc\u00e1rios, nos trabalhadores dos servi\u00e7os, nas atividades industriais, na agricultura.<\/p>\n<p>No passado, n\u00e3o havia suic\u00eddios ligados ao trabalho na ind\u00fastria. Eram os agricultores que se suicidavam por causa do trabalho, os assalariados agr\u00edcolas e os pequenos propriet\u00e1rios cuja atividade tinha sido destru\u00edda pela concorr\u00eancia das grandes explora\u00e7\u00f5es. Ainda h\u00e1 suic\u00eddios no mundo agr\u00edcola.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>O que \u00e9 que mudou nas empresas?<\/h4>\n<p>o que mudou foram principalmente tr\u00eas coisas:<\/p>\n<ul>\n<li>a introdu\u00e7\u00e3o de novos m\u00e9todos de avalia\u00e7\u00e3o do trabalho, em particular a avalia\u00e7\u00e3o individual do desempenho;<\/li>\n<li>a introdu\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicas ligadas \u00e0 chamada &#8220;qualidade total&#8221;,<\/li>\n<li><i>outsourcing<\/i>, que tornou o trabalho mais prec\u00e1rio. Terceiriza\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n<p>A avalia\u00e7\u00e3o individual \u00e9 uma t\u00e9cnica extremamente poderosa que modificou totalmente o mundo do trabalho, porque p\u00f4s em concorr\u00eancia os servi\u00e7os, as empresas, as sucursais e tamb\u00e9m os indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>E se estiver associada \u00e0 pr\u00eamios ou promo\u00e7\u00f5es, pode existir\u00a0 amea\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o do emprego, isso gera o medo.<\/p>\n<p>E como as pessoas est\u00e3o agora a competir entre elas, o \u00eaxito dos colegas constitui uma amea\u00e7a, altera profundamente as rela\u00e7\u00f5es no trabalho: <em>O que quero \u00e9 que os outros n\u00e3o consigam fazer bem o seu trabalho.<\/em><\/p>\n<p>Muito rapidamente, as pessoas aprendem a sonegar informa\u00e7\u00e3o, a fazer circular boatos e, aos poucos, todos os elos que existiam at\u00e9 a\u00ed, a aten\u00e7\u00e3o aos outros, a considera\u00e7\u00e3o, a ajuda m\u00fatua, acabam por ser destru\u00eddos.<\/p>\n<p>As pessoas j\u00e1 n\u00e3o se falam, j\u00e1 n\u00e3o olham umas para as outras. E quando uma delas \u00e9 v\u00edtima de uma injusti\u00e7a, quando \u00e9 escolhida como alvo de um ass\u00e9dio, ningu\u00e9m se mexe&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Mas o ass\u00e9dio no trabalho \u00e9 novo?<\/h4>\n<p>N\u00e3o, mas a diferen\u00e7a \u00e9 que, antes, as pessoas n\u00e3o adoeciam. O que mudou n\u00e3o foi o ass\u00e9dio, o que mudou \u00e9 que as solidariedades desapareceram.<\/p>\n<p>Quando algu\u00e9m era assediado, beneficiava do olhar dos outros, da ajuda dos outros, ou simplesmente do testemunho dos outros.<\/p>\n<p>Agora est\u00e3o s\u00f3s perante o assediador \u00e9 isso que \u00e9 particularmente dif\u00edcil de suportar. O mais dif\u00edcil em tudo isto n\u00e3o \u00e9 o fato de ser assediado, mas o fato de viver uma trai\u00e7\u00e3o, a trai\u00e7\u00e3o dos outros.<\/p>\n<p>Descobrimos de repente que as pessoas com quem trabalhamos h\u00e1 anos s\u00e3o covardes, que se recusam a testemunhar, que nos evitam, que n\u00e3o querem falar conosco.<\/p>\n<p>A\u00ed \u00e9 que se torna dif\u00edcil sair do po\u00e7o, sobretudo para os que gostam do seu trabalho, para os mais envolvidos profissionalmente.<\/p>\n<p>Muitas vezes, a empresa pediu-lhes sacrif\u00edcios importantes, em termos de sobrecarga de trabalho, de ritmo de trabalho, de objetivos \u00e0 atingir.<\/p>\n<p>E at\u00e9\u00a0 pode ter pedido (o que \u00e9 algo de relativamente novo) para fazerem coisas que v\u00e3o contra a sua \u00e9tica de trabalho, que moralmente desaprovam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Qual \u00e9 o perfil das pessoas que s\u00e3o alvo de ass\u00e9dio?<\/h4>\n<p>S\u00e3o justamente pessoas que acreditam no seu trabalho, que est\u00e3o envolvidas e que, quando come\u00e7am a ser censuradas de forma injusta, s\u00e3o muito vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>Por outro lado, s\u00e3o frequentemente pessoas muito honestas. Portanto, quando lhes pedem coisas que v\u00e3o contra as regras da profiss\u00e3o, contra a lei e os regulamentos, contra o c\u00f3digo do trabalho, recusam-se a fazer.<\/p>\n<p>Um \u00fanico caso de ass\u00e9dio tem um efeito extremamente potente sobre toda a comunidade de uma empresa. Uma mulher est\u00e1 a ser assediada e vai ser destru\u00edda, uma situa\u00e7\u00e3o de uma total injusti\u00e7a; ningu\u00e9m se mexe, mas todos ficam ainda com mais medo do que antes.<\/p>\n<p>O medo instala-se. Com um \u00fanico ass\u00e9dio, consegue-se dominar o coletivo de trabalho. Por isso, \u00e9 importante, ao contr\u00e1rio do que se diz, que o ass\u00e9dio seja bem vis\u00edvel para todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Voltando ao perfil do assediado, \u00e9 perigoso acreditar realmente no seu trabalho?<\/h4>\n<p>\u00c9. O que vemos \u00e9 que, hoje em dia, envolver-se demasiado no seu trabalho representa um verdadeiro perigo. Mas, ao mesmo tempo, n\u00e3o pode haver intelig\u00eancia no trabalho sem envolvimento pessoal, sem um envolvimento total.<\/p>\n<p>Isso gera, ali\u00e1s, um dilema terr\u00edvel, nomeadamente em rela\u00e7\u00e3o aos nossos filhos. As pessoas suicidam-se no trabalho, portanto n\u00e3o podemos dizer aos nossos filhos, como os nossos pais nos disseram a n\u00f3s, que \u00e9 gra\u00e7as ao trabalho que n\u00f3s podemos emancipar e realizar-se pessoalmente.<\/p>\n<p>Hoje, somos obrigados a dizer aos nossos filhos que \u00e9 preciso trabalhar, mas n\u00e3o muito. \u00c9 uma mensagem totalmente contradit\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Como distinguir um suic\u00eddio ligado ao trabalho de um suic\u00eddio devido a outras causas?<\/h4>\n<p>\u00c9 uma pergunta \u00e0 qual nem sempre \u00e9 poss\u00edvel responder. Hoje em dia, n\u00e3o somos capazes de esclarecer todos os suic\u00eddios no trabalho.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 casos em que \u00e9 indiscut\u00edvel que o que est\u00e1 em causa \u00e9 o trabalho. Quando as pessoas se matam no local de trabalho, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que o trabalho est\u00e1 em causa.<\/p>\n<p>Quando o suic\u00eddio acontece fora do local de trabalho e a pessoa deixa cartas, um di\u00e1rio, onde explica por que se suicida, tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas, s\u00e3o documentos aterradores.<\/p>\n<p>Mas quando as pessoas se suicidam fora do local do trabalho e n\u00e3o deixam uma nota, \u00e9 muito complicado fazer a distin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, \u00e0s vezes \u00e9 poss\u00edvel. Um caso recente e uma das minhas vit\u00f3rias pessoais foi julgado antes do Natal, em Paris. Foi um processo bastante longo contra a Renault por causa do suic\u00eddio de v\u00e1rios engenheiros e cientistas altamente qualificados que trabalhavam na concep\u00e7\u00e3o dos ve\u00edculos, num centro de pesquisas da empresa em Guyancourt.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Quando \u00e9 que isso aconteceu?<\/h4>\n<p>Em 2006-2007. Houve cinco suic\u00eddios consecutivos; quatro atiraram-se do topo de umas escadas interiores, do quinto andar, \u00e0 frente dos colegas, num local com muita passagem \u00e0 hora do almo\u00e7o.<\/p>\n<p>Mas um deles, ali\u00e1s de origem portuguesa, n\u00e3o se suicidou no local do trabalho. Era muit\u00edssimo utilizado pela Renault nas discuss\u00f5es e negocia\u00e7\u00f5es sobre novos modelos e produ\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as no Brasil.<\/p>\n<p>Foi utilizado, explorado de forma aterradora. Pediam-lhe constantemente para ir ao Brasil e o homem estava exausto por causa da diferen\u00e7a hor\u00e1ria.<\/p>\n<p>Era uma pessoa totalmente dedicada, tinha mesmo feito coisas boas como traduzir documentos t\u00e9cnicos para portugu\u00eas, para tentar ganhar o mercado brasileiro para a empresa.<\/p>\n<p>A dada altura, teve uma depress\u00e3o bastante grave e acabou por se suicidar.<\/p>\n<p>A vi\u00fava processou a Renault, que em Dezembro acabou por ser condenada por &#8220;<em>falta imperdo\u00e1vel do empregador&#8221; conceito do direito da seguran\u00e7a social em Fran\u00e7a,<\/em> por n\u00e3o ter tomado as devidas precau\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Foi um acontecimento importante porque, pela primeira vez, uma grande multinacional foi condenada em virtude das suas pr\u00e1ticas inadmiss\u00edveis.<\/p>\n<p>Os advogados do trabalho apoiaram-se muito nos resultados cient\u00edficos do meu laborat\u00f3rio. O acord\u00e3o do tribunal tinha 25 p\u00e1ginas e as provas foram consideradas esmagadoras.<\/p>\n<p>Havia<i> e-mails <\/i>onde o engenheiro dizia que j\u00e1 n\u00e3o aguentava mais e que a empresa fez desaparecer limpando o disco r\u00edgido do seu computador. Mas ele tinha c\u00f3pias dos documentos no seu computador de casa. A argumenta\u00e7\u00e3o foi impar\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Mesmo assim, as empresas continuam a dizer que os suic\u00eddios dos seus funcion\u00e1rios t\u00eam a ver com a vida privada e n\u00e3o com o trabalho.<\/h4>\n<p>Todo mundo tem problemas pessoais. Portanto, quando algu\u00e9m diz que uma pessoa se suicidou por raz\u00f5es pessoais, n\u00e3o est\u00e1 totalmente errado.<\/p>\n<p>Se procurarmos bem, vamos acabar por encontrar, na maioria dos casos, sinais precursores, sinais de fragilidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem j\u00e1 tenha estado doente, h\u00e1 quem tenha tido epis\u00f3dios depressivos no passado. \u00c9 preciso fazer uma investiga\u00e7\u00e3o muito aprofundada.<\/p>\n<p>Mas se a empresa pretender provar que a crise depressiva de uma pessoa se deve a problemas pessoais, vai ter de explicar por que \u00e9 que, durante 10, 15, 20 anos, essa pessoa, apesar das suas fragilidades, funcionou bem no trabalho e n\u00e3o adoeceu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Mas como \u00e9 que o trabalho pode conduzir ao suic\u00eddio? S\u00f3 acontece a pessoas com determinada vulnerabilidade?<\/h4>\n<p>S\u00f3 muito recentemente \u00e9 que percebi que uma pessoa podia ser levada ao suic\u00eddio sem que tivesse at\u00e9 ali apresentado qualquer sinal de vulnerabilidade psicopatol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Fiquei extremamente surpreendido com um caso em especial, do qual n\u00e3o posso falar muito aqui, porque ainda n\u00e3o foi julgado, de uma mulher que se suicidou na sequ\u00eancia de um ass\u00e9dio no trabalho.<\/p>\n<p>A Pol\u00edcia Judici\u00e1ria francesa tinha interrogado os seus colegas de trabalho e, como a ordem vinha de um juiz, as pessoas falaram.<\/p>\n<p>Foram 40 depoimentos que descreviam a maneira como essa mulher tinha sido tratada pelo patr\u00e3o (apenas uma contradiz as restantes 39).<\/p>\n<p>E o que emerge \u00e9 que, devido ao ass\u00e9dio, ela caiu num estado psicopatol\u00f3gico muito parecido com um acesso de melancolia.<\/p>\n<p>Ora, o que mais me espantou, quando procurei sinais precursores, \u00e9 que n\u00e3o encontrei absolutamente nada. E, pela primeira vez, comecei a pensar que, em certas situa\u00e7\u00f5es, quando uma pessoa que n\u00e3o \u00e9 melanc\u00f3lica \u00e9 escolhida como alvo de ass\u00e9dio, \u00e9 poss\u00edvel fabricar, desencadear uma verdadeira depress\u00e3o em tudo igual \u00e0 melancolia.<\/p>\n<p>Quando essa pessoa se v\u00ea sem ch\u00e2o, tem uma depress\u00e3o, auto desvaloriza-se, torna-se pessimista, pensa que n\u00e3o vale nada, que merece realmente morrer.<\/p>\n<p>Era uma mulher hiperbrilhante, muit\u00edssimo apreciada, muito envolvida, imaginativa, produtiva. Tinha duas crian\u00e7as \u00f3timas e um marido excepcional.<\/p>\n<p>Falei com os seus amigos, o marido, a m\u00e3e. N\u00e3o encontrei nenhum sinal precursor de sofrimento mental, nem sequer na sua inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Aconteceu sem pr\u00e9-aviso?<\/h4>\n<p>Houve um per\u00edodo cr\u00edtico que ter\u00e1 durado um m\u00eas. As pessoas \u00e0 sua volta deram por isso. Viram que ela estava muito mal, o m\u00e9dico do trabalho foi avisado e obrigou-a a parar de trabalhar e pediu a algu\u00e9m que a levasse para casa.<\/p>\n<p>Mas ela n\u00e3o queria parar, insistia que queria conseguir fazer o que tinha a fazer. A fam\u00edlia tamb\u00e9m percebeu que algo estava a acontecer, ela consultou um psiquiatra, mas \u00e9 imposs\u00edvel travar este tipo de descompensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi para casa da m\u00e3e, mas quando pensaram que estava a melhorar um pouco, relaxaram a vigil\u00e2ncia e ela atirou-se pela janela.<\/p>\n<p>Nos testemunhos recolhidos pela pol\u00edcia, v\u00ea-se claramente que ningu\u00e9m se atreveu a ajud\u00e1-la; todos dizem que tinham medo.<\/p>\n<p>Tinham medo do patr\u00e3o, que era um tirano. Tamb\u00e9m assediava sexualmente outras mulheres e esta mulher era muito bonita.<\/p>\n<p>N\u00e3o consegui saber se tinha havido ass\u00e9dio sexual, mas v\u00e1rias pessoas evocam no seu depoimento que ela ter\u00e1 ca\u00eddo em desgra\u00e7a porque tinha recusado a fazer o que ele queria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>O caso da France T\u00e9l\u00e9com foi muito medi\u00e1tico, com 25 suic\u00eddios. O suic\u00eddio \u00e9 mais frequente nas grandes empresas?<\/h4>\n<p>N\u00e3o. Nas grandes empresas pode ser mais vis\u00edvel, mas h\u00e1 tamb\u00e9m muitas pequenas empresas onde as coisas correm muito mal, onde os crit\u00e9rios s\u00e3o incrivelmente arbitr\u00e1rios e onde o ass\u00e9dio pode ser pior.<\/p>\n<p>Nas grandes empresas, subsiste por vezes uma presen\u00e7a sindical que faz com que os casos venham a p\u00fablico. Foi assim na France T\u00e9l\u00e9com.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o acredito que a destrui\u00e7\u00e3o atual do mundo do trabalho esteja a acontecer apenas em algumas grandes multinacionais. E \u00e9 importante salientar que tamb\u00e9m h\u00e1 multinacionais onde as coisas correm bem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Quantas pessoas se suicidam por ano, em Fran\u00e7a e noutros pa\u00edses?<\/h4>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 estat\u00edsticas do suic\u00eddio no trabalho. Em Fran\u00e7a, foi constitu\u00edda uma comiss\u00e3o ministerial onde pela primeira vez foi dito claramente que \u00e9 urgente aplicar ferramentas que permitam analisar a rela\u00e7\u00e3o entre suic\u00eddio e trabalho.<\/p>\n<p>Mas, por enquanto, isso n\u00e3o existe. Nem na B\u00e9lgica, nem no Canad\u00e1, nem nos Estados Unidos, n\u00e3o existe em s\u00edtio nenhum.<\/p>\n<p>Na Su\u00e9cia, por exemplo, h\u00e1 provavelmente tantos suic\u00eddios no trabalho como em Fran\u00e7a. Mas n\u00e3o h\u00e1 debate. Em muitos pa\u00edses n\u00e3o h\u00e1 debate, porque n\u00e3o existe esse espa\u00e7o cl\u00ednico, essa nova medicina do trabalho que estamos a desenvolver em Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>De fato, a Fran\u00e7a \u00e9 dos s\u00edtios onde mais se fala do assunto. O debate franc\u00eas interessa muita gente, mas tamb\u00e9m mete muito medo.<\/p>\n<p>Em Fran\u00e7a, foi feito um \u00fanico inqu\u00e9rito, h\u00e1 quatro anos, pela Inspe\u00e7\u00e3o M\u00e9dica do Trabalho, em tr\u00eas departamentos divis\u00f5es administrativas, passando pelos m\u00e9dicos do trabalho, e chegaram a um total de 50 suic\u00eddios em cinco anos.<\/p>\n<p>\u00c9 provavelmente um valor subestimado, mas, extrapolando-o a todos os departamentos, d\u00e1 entre 300 e 400 suic\u00eddios no trabalho por ano.<\/p>\n<p>Mas, tem como mudar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>O que fizeram?<\/h4>\n<article class=\"hentry article single\">\n<div class=\"entry-content single\">\n<div id=\"Noticia335992\" class=\"entry-body\">\n<p>Abandonaram a avalia\u00e7\u00e3o individual, ali\u00e1s, esses patr\u00f5es estavam totalmente fartos dela. Durante um encontro que tive com o presidente de uma das empresas, ele confessou-me, ap\u00f3s um longo momento de reflex\u00e3o, que o que mais odiava no seu trabalho era ter de fazer a avalia\u00e7\u00e3o dos seus subordinados e que essa era a altura mais infernal do ano.<\/p>\n<p>Surpreendente, n\u00e3o? E a raz\u00e3o que me deu foi que a avalia\u00e7\u00e3o individual n\u00e3o ajuda a resolver os problemas da empresa. Pelo contr\u00e1rio, agrava as coisas.<\/p>\n<p>Neste caso, trata-se de uma pequena empresa privada que se preocupa com a qualidade da sua produ\u00e7\u00e3o e n\u00e3o apenas por raz\u00f5es monet\u00e1rias, mas por quest\u00f5es de bem-estar e conv\u00edvio do consumidor final.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 que pensar em termos de conv\u00edvio\u00a0 faz melhorar a qualidade da produ\u00e7\u00e3o e far\u00e1 com que a empresa seja escolhida pelos clientes face a outras do mesmo ramo.<\/p>\n<p>Para conseguir, foi preciso que existisse coopera\u00e7\u00e3o dentro da empresa, sinergias entre as pessoas e que os pontos de vista contradit\u00f3rios pudessem ser discutidos.<\/p>\n<p>E isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel num ambiente de confian\u00e7a m\u00fatua, de lealdade, onde ningu\u00e9m tem medo de arriscar falar alto.<\/p>\n<p>Se conseguirmos mostrar cientificamente, numa ou duas empresas com grande visibilidade, que este tipo de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho funciona, teremos dado um grande passo em frente.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte:<\/p>\n<p>Christophe Dejours<\/p>\n<p>Psiquiatra, psicanalista e professor no Conservatoire National des Arts et M\u00e9tiers, em Paris, dirige o Laborat\u00f3rio de Psicologia do Trabalho e da A\u00e7\u00e3o, que estuda a rela\u00e7\u00e3o entre trabalho e doen\u00e7a mental.<\/p>\n<p>P\u00fablico<\/p>\n<p>https:\/\/www.publico.pt<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s.publico.pt\/JORNAL\/18695223\" alt=\"\" width=\"1\" height=\"1\" \/> <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s.publico.pt\/temas\/18695223\" alt=\"\" width=\"1\" height=\"1\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Christophe Dejours, especialista em Trabalho e Sa\u00fade Mental, desmonta a espiral de solid\u00e3o e de desespero que pode levar ao suic\u00eddio. &nbsp; &nbsp; Nos \u00faltimos anos, tr\u00eas ferramentas de gest\u00e3o estiveram na base de uma transforma\u00e7\u00e3o radical da maneira como trabalhamos: a avalia\u00e7\u00e3o individual do desempenho, a exig\u00eancia de &#8220;qualidade total&#8221;, outsourcing.( Terceiriza\u00e7\u00e3o ) O [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-4375","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4375","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4375"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4375\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4379,"href":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4375\/revisions\/4379"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4375"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4375"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4375"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}