{"id":1392,"date":"2016-08-16T20:13:23","date_gmt":"2016-08-16T23:13:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/?p=1392"},"modified":"2016-08-17T07:15:52","modified_gmt":"2016-08-17T10:15:52","slug":"ociofobia-quando-o-tedio-e-a-melhor-coisa-que-pode-te-acontecer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/arquivos\/1392","title":{"rendered":"\u00d3ciofobia: quando o t\u00e9dio \u00e9 a melhor coisa que pode te acontecer"},"content":{"rendered":"<h3>O t\u00e9dio pode ser um momento prazeroso e ben\u00e9fico<\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O psic\u00f3logo Rafael Santandreu come\u00e7a a receber nesta \u00e9poca pacientes que t\u00eam p\u00e2nico das f\u00e9rias. Passar um m\u00eas sem fazer nada \u00e9 aterrorizante, muitos at\u00e9 precisam tomar ansiol\u00edticos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o raro como parece. Peter Toohey insere em <em>Boredom: A Lively History<\/em> T\u00e9dio: uma Hist\u00f3ria Animada, em tradu\u00e7\u00e3o livre um postal que recebeu em um m\u00eas de agosto:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 300px; text-align: justify;\">\u201cPassei f\u00e9rias maravilhosas. Choveu o tempo todo. N\u00e3o tive de levar as crian\u00e7as \u00e0 praia nem uma \u00fanica vez. Pude concluir um monte de trabalho\u201d.<\/p>\n<p><em>Em nossa sociedade h\u00e1 fobia do t\u00e9dio<\/em>, explica a Verne Santandreu, autor de Las Gafas de la Felicidade. Os \u00d3culos da Felicidade, em tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o exagera: o tempo vazio assusta tanto, que 25% das mulheres e 66% dos homens fechados em um aposento durante 15 minutos preferem receber uma leve descarga el\u00e9trica em vez de ficar sem fazer nada, segundo assinala a Scientific American.<\/p>\n<p>Qualquer coisa vale para matar o tempo. Como diz Toohey em seu livro, de cara h\u00e1 motivos para temer o t\u00e9dio.<\/p>\n<p><span style=\"color: #0000ff;\"><em>O t\u00e9dio cr\u00f4nico est\u00e1 associado a um maior risco de desenvolver ansiedade, depress\u00e3o, depend\u00eancia de \u00e1lcool ou drogas, ataques de ira, comportamento agressivo e car\u00eancia de habilidades interpessoais, al\u00e9m de resultados ruins no trabalho e na escola.<\/em><\/span><\/p>\n<p>Encontramos um exemplo de quase tudo ao mesmo tempo em Jack Torrance, o protagonista de <em>O Iluminado<\/em>.<\/p>\n<p>Fechado em um hotel durante todo o inverno com sua fam\u00edlia, \u00e9 incapaz de superar seu alcoolismo e escrever seu romance, e cai v\u00edtima de um t\u00e9dio que o leva \u00e0s alucina\u00e7\u00f5es, \u00e0 ira e a abrir portas com um machado.<\/p>\n<p><em>N\u00e3o existe o excesso de t\u00e9dio,<\/em> afirma Santandreu. \u201c<span style=\"color: #0000ff;\"><em>Existe uma m\u00e1 viv\u00eancia do estar entediado.<\/em><\/span>\u201d O psic\u00f3logo compara isso a uma supersti\u00e7\u00e3o. <em>Se voc\u00ea tem medo de que um gato preto cruze na sua frente, voc\u00ea passar\u00e1 mal quando tal coisa acontecer, mas isso n\u00e3o significa que um gato preto de verdade provoque m\u00e1 sorte.<\/em><\/p>\n<figure style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Sherlock Holmes (Benedict Cumberbatch) muito entediado.\" src=\"http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2015\/06\/08\/ciencia\/1433771989_020991_1442361963_noticia_normal.jpg\" alt=\"Sherlock Holmes (Benedict Cumberbatch) muito entediado.\" width=\"560\" height=\"312\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Sherlock Holmes (Benedict Cumberbatch) muito entediado.<\/figcaption><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p>O t\u00e9dio, como o pobre gato, n\u00e3o tem nada de mau. Segundo Santandreu,<span style=\"color: #0000ff;\"><em> \u00e9 muito importante recuperar o prazer de n\u00e3o fazer nada<\/em>.<\/span> <span style=\"color: #0000ff;\">O t\u00e9dio faz parte de nossa natureza, nos p\u00f5e em um estado mental de calma e de felicidade e \u00e9 um grande ativador de grandes tarefas<\/span>.<\/p>\n<p>Santandreu recorda uma frase de Blaise Pascal que teria ca\u00eddo bem a Torrance e aos participantes no estudo das descargas el\u00e9tricas. <em>\u201cTodos os males dos homens v\u00eam de uma s\u00f3 coisa: n\u00e3o saber ficar tranquilos em um aposento.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Temos de aprender a desfrutar esses instantes em que n\u00e3o fazemos nada ou n\u00e3o h\u00e1 nada que possamos fazer.<\/p>\n<p>Desde a inf\u00e2ncia as crian\u00e7as s\u00e3o superestimuladas, diz Santandreu. N\u00e3o sabem entediar-se e isso pode provocar um aumentou ou uma piora do transtorno por d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Santandreu at\u00e9 mesmo sugere que nas escolas as crian\u00e7as deveriam dedicar tempo <em>a n\u00e3o fazer nada, a olhar a parede durante uma hora para perder o medo do enfado.<\/em><\/p>\n<p>O pr\u00f3prio psic\u00f3logo explica que os 15 minutos que tem livres entre um paciente e outro dedica a \u201colhar pela janela\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o fazer nada serve para muita coisa. Toohey cita uma pesquisa na qual se afirma<em> que o t\u00e9dio pode conter um potencial importante de reflex\u00e3o e pode ser um est\u00edmulo \u00e0 criatividade.<\/em><\/p>\n<p>O fastio nos permite sonhar acordados e imaginar solu\u00e7\u00f5es e alternativas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/tedio-2.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-1394 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/tedio-2.jpg\" alt=\"tedio 2\" width=\"352\" height=\"483\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>\u00c9 uma oportunidade para o pensamento para a reflex\u00e3o ou o relaxamento. Lars Svendsen acrescenta em Filosof\u00eda del Tedio que essa sensa\u00e7\u00e3o de enfado pressup\u00f5e um momento de reflex\u00e3o sobre si mesmo, de contempla\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o no mundo.<\/em><\/p>\n<p>Santandreu vai mais longe, tudo isso soa muito bem, mas se nos entediamos sem obter nenhuma vantagem positiva em troca, qual seria o problema? O objetivo da vida n\u00e3o \u00e9 produzir constantemente bens tang\u00edveis ou intang\u00edveis.<\/p>\n<p>O psic\u00f3logo recomenda <em>\u201ccortar e reduzir a velocidade\u201d.<\/em> Ou seja, <em>\u201cprescindir de tarefas, de meios\u201d e \u201cfazer as coisas mais devagar e prestando mais aten\u00e7\u00e3o\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Santandreu relaciona a m\u00e1 fama do t\u00e9dio com a sociedade do consumo e do \u00f3cio, que quer que sempre estejamos <em>ocupados ou fazendo coisas emocionantes<\/em>.<\/p>\n<p>Nesse sentido, Toohey recorda que o tempo livre, para Adorno, \u00e9 conduzido pela mesma comercializa\u00e7\u00e3o que o tempo do trabalho. <em>O trabalho gera benef\u00edcios e o tempo livre tem de fazer o mesmo.<\/em><\/p>\n<p>Segundo Santandreu, a Internet \u00e9 um dos principais respons\u00e1veis pela<span style=\"color: #0000ff;\"><em> \u00f3ciofobia<\/em>,<\/span> para usar o termo cunhado pelo pr\u00f3prio psic\u00f3logo. <em>\u00c9 uma fornecedora de informa\u00e7\u00e3o avassaladora<\/em>. Em muitos casos se trata de conte\u00fados pensados para <em>durar pouco tempo, e de um uso muito limitado.<\/em><\/p>\n<p>A Internet n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3. A obsess\u00e3o de nossa cultura com fontes externas de entretenimento, a televis\u00e3o, a Internet, os videogames, poderia desempenhar um papel no incremento do t\u00e9dio, escrevia Anna Gosline na Scientific American.<\/p>\n<p>De fato, a Internet tem a vantagem da ubiquidade. Pegamos o celular t\u00e3o logo chegamos no ponto do \u00f4nibus ou buscamos algo para fazer com nosso tablet enquanto transcorrem as horas do domingo.<\/p>\n<p>Fazemos isso com tanta frequ\u00eancia que o Google at\u00e9 completa a busca com refer\u00eancias ao t\u00e9dio quando come\u00e7amos a lhe perguntar por coisas que podemos fazer.<\/p>\n<p>E isso apesar de que a Internet nem sempre nos diverte. \u00c0s vezes \u00e9 como uma descarga el\u00e9trica em um c\u00f4modo vazio. S\u00f3 \u00e9 um meio com o qual tentamos matar o tempo.<\/p>\n<p>Segundo dados do Google e da Microsoft citados por Nicholas Carr em <em>What Should We Be Worried About<\/em> &#8211; Sobre o que Dever\u00edamos nos Preocupar, em tradu\u00e7\u00e3o livre:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 300px; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"> &#8220;come\u00e7amos a abandonar uma p\u00e1gina se levar mais de 250 milissegundos para ser baixada e deixamos de ver um v\u00eddeo se leva dois segundos para come\u00e7ar. Temos tanto p\u00e2nico de nos entediar que fugimos quando vemos uma tela escura&#8221;.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p>&#8220;A medida que uma rede se torna mais r\u00e1pida, n\u00f3s nos tornamos mais impacientes&#8221;, escreve Carr. O fen\u00f4meno se amplifica pelo zunido constante do Facebook, Twitter, as mensagens de texto e as redes sociais em geral.<\/p>\n<p>\u00c9 cada vez menos prov\u00e1vel que <em>experimentemos qualquer coisa que requeira uma espera, que n\u00e3o nos proporcione uma gratifica\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea.<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o sabemos esperar porque n\u00e3o queremos viver em um presente constante, como sugere Douglas Rushkoff em <em>Present Shock: When Everything Happens Now<\/em> Choque Presente: Quanto Tudo Acontece Agora, em tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/p>\n<p>Nosso objetivo ilus\u00f3rio \u00e9 estar em dia com todas as atualiza\u00e7\u00f5es de redes sociais e correios eletr\u00f4nicos para estar finalmente no agora.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/tedio-4.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-1402 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/tedio-4-300x141.jpg\" alt=\"tedio 4\" width=\"489\" height=\"230\" srcset=\"https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/tedio-4-300x141.jpg 300w, https:\/\/www.mundiblue.com\/consultoria\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/tedio-4.jpg 327w\" sizes=\"(max-width: 489px) 100vw, 489px\" \/><\/a><\/p>\n<p>N\u00e3o nos permitimos um instante vazio. Se n\u00e3o estamos olhando o celular, \u00e9 o pr\u00f3prio telefone que requer nossa aten\u00e7\u00e3o com vibra\u00e7\u00f5es e alertas sonoros.<\/p>\n<p>Como escreve Svendsen, n\u00f3s nos negamos a abandonar o mundo m\u00e1gico da inf\u00e2ncia, cheio de coisas novas e emocionantes. Ficamos suspensos em um estado intermedi\u00e1rio entre a meninice e a maturidade, em uma puberdade sem fim, esquecendo que a <em>puberdade est\u00e1 cheia de t\u00e9dio.<\/em><\/p>\n<p>O poeta russo-norte-americano Joseph Brodsky escreveu uma exalta\u00e7\u00e3o ao t\u00e9dio que talvez seja o texto mais citado sobre o tema.<\/p>\n<p><em>Sua solu\u00e7\u00e3o para o medo que o t\u00e9dio nos produz \u00e9 nos rendermos. Sempre que fores atingido pelo t\u00e9dio, deixa-te ser esmagado por ele, submerge, bate no fundo.<\/em><\/p>\n<p>Em geral, com as coisas desagrad\u00e1veis a regra \u00e9: quanto mais cedo bateres no fundo, mais r\u00e1pido voltas \u00e0 tona. O t\u00e9dio representa o tempo em toda sua pureza, em toda sua repeti\u00e7\u00e3o, sup\u00e9rfluo e mon\u00f3tono esplendor. P\u00f5e a tua exist\u00eancia em perspectiva e o resultado l\u00edquido \u00e9 precisamente o conhecimento e a humildade.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte:<\/p>\n<p>http:\/\/brasil.elpais.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O t\u00e9dio pode ser um momento prazeroso e ben\u00e9fico &nbsp; O psic\u00f3logo Rafael Santandreu come\u00e7a a receber nesta \u00e9poca pacientes que t\u00eam p\u00e2nico das f\u00e9rias. Passar um m\u00eas sem fazer nada \u00e9 aterrorizante, muitos at\u00e9 precisam tomar ansiol\u00edticos. N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o raro como parece. 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